Rejeitados, refugiados vivem drama da deportação para a Síria

Rejeitados, refugiados vivem drama da deportação para a Síria

Jamil Chade

01 Abril 2016 | 16h25

 

 

wr

 

 

 

GENEBRA – Manipulados politicamente por governos e sob o risco de cair nas mãos de grupos criminosos, refugiados à beira da Europa são jogados de um lado para o outro das fronteiras, vivem o drama de serem deportados de volta para a guerra e buscam novas rotas. Enquanto isso, a ONU apela para que o acordo da UE para devolver estrangeiros para a Turquia a partir de segunda-feira seja suspenso até que garantias sejam dadas.

Novos dados apresentados pela ONU e pela Organização Internacional de Migrações revelam que, desde que a Europa fechou um acordo para devolver milhares de pessoas para a Turquia, o fluxo de refugiados sofreu uma forte queda nas ilhas gregas. Nos últimos dias, os desembarques foram praticamente inexistentes e, partir da segunda-feira, a UE promete expulsar cada um que chegar de forma irregular.

Desde o início do ano, 169 mil pessoas cruzaram o mar Mediterrâneo em direção à Europa. O número é oito vezes superior às taxas registradas entre janeiro e março de 2015. Mas em comparação aos dados de novembro e dezembro de 2015, os números começaram a registrar uma queda.

No último mês do ano passado, foram 118 mil desembarques nas costas europeias, contra 67 mil em janeiro, 62 mil em fevereiro e apenas 39 mil em março. Na Grécia, o número passou de 67 mil em janeiro para apenas 27 mil em março e, pela primeira vez em meses, Lesbos teve dias em que nenhum refugiado chegou.

A ONU prefere não especular se a queda tem uma relação direta com o acordo entre a UE e a Turquia. Mas afirma que a crise não acabou.

Um sinal disso é que os desembarques na Itália quase dobraram. Se entre janeiro e março de 2015 cerca de 10 mil pessoas chegaram no sul do país, a taxa hoje é de 19 mil.

Nos últimos dias, a média passou de menos de 500 a cada 24 horas para quase 3 mil. Segundo a OIM, nem sempre os refugiados são da mesma nacionalidade. Mas observadores nas fronteiras já identificam como grupos criminosos de contrabandistas tem oferecido aos refugiados sírios fazer o trajeto entre a Turquia e o Sul da Itália, numa viagem bem mais longa e arriscada.

Suspensão – A ONU ainda se diz preocupada com os cerca de 54 mil refugiados hoje na Grécia e que não encontram nem uma caminho para ser realocados pela Europa e ainda correm o risco de serem deportados para a Turquia. Para a entidade, o acordo precisa ser suspenso.

Pelo tratado com Ancara, cada estrangeiro tem o direito de apresentar seu pedido de asilo antes de ser embarcado para o outro lado do mar Egeu. Mas, segundo a ONU, nada garante que essas pessoas estão sendo atendidas. A entidade, ao rejeitar o acordo, abandonou os serviços de registros nas ilhas gregas e, agora, o clima é de revolta entre os refugiados.

Na noite de quinta-feira para sexta-feira, um dos centros de acolhida na Grécia tinha uma fila de 1,7 mil pessoas, aguardando para fazer o pedido de asilo. Uma confusão acabou tomando conta do local e, diante da violência, três pessoas ficaram seriamente feridas. « Frustração e ansiedade são generalizadas », disse Melissa Flemings, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados.

Para a Grécia, os centros de registros precisam d um número 20 vezes maior de funcionários para lidar com os casos e, em Bruxelas, ninguém garante que os governos europeus vão reassentar as pessoas hoje bloqueadas na Grécia.

O número de mortes também aumentou, apesar da queda no fluxo de pessoas. Isso, para a ONU, revela que os refugiados estão se arriscando ainda mais. Em três meses, foram 620 vítimas, 23% acima das taxas do começo de 2015. Desde setembro, 358 crianças morreram ao tentar chegar até a Europa.

Deportados – Outra constatação é de que, desde que o acordo foi assinado com Ancara, os relatos de sírios sendo deportados de volta ao país em guerra aumentaram. Num informe, a Anistia Internacional acusou abertamente o governo turco de estar promovendo os retornos, o que seria um crime.

« Em seu desespero por fechar suas fronteiras, a Europa ignorou o fato de que a Turquia não é um país seguro ara os refugiados », disse John Dalhuisen, diretor da Anistia na Europa. « Longe de pressionar a Turquia por proteção aos sírios, a UE está incentivando o contrário », disse.

Já a ONU preferiu não comentar as deportações. Ao Estado, fontes do alto escalão da entidade admitem que precisam « fechar os olhos para algumas coisas » para continuar a operar em Ancara, onde 2,7 milhões de refugiados sírios estão sendo acolhidos e precisam de assistência.