Sol da meia-noite

Sol da meia-noite

Jamil Chade

24 Junho 2017 | 10h34

OSLO – A viagem do presidente Michel Temer a Oslo coincidiu com a época do ano em que o sol praticamente não desaparece. Pude constatar que ficou realmente escuro por menos de duas horas nas últimas noites. Para dormir, só mesmo com pesadas cortinas.

Talvez isso tenha explicado o visível cansaço no semblante do presidente. Claro, como se alguém no governo ainda precisasse de um motivo para não dormir, depois de toda a crise política no País.

Talvez esse cansaço até explique o motivo pelo qual ele tenha confundido o rei da Noruega, que o receberia, pelo rei da Suécia.

O certo é que, nos últimos dias na Noruega, uma viagem que deveria ter sido um momento de mostrar ao mundo a pseudo-normalidade do País, se transformou em uma desagradável surpresa e alguns pesadelos.

Surpresa, primeiramente, diante do anúncio da Noruega que estava cortando milhões de dólares em transferências ao Brasil por conta do fracasso da política ambiental do País.

Mas a maior surpresa viria no dia seguinte, na sexta-feira, quando a primeira-ministra do país, Erna Solberg, aproveitou uma coletiva de imprensa ao lado de Temer para passar um pito público. “Estamos preocupados com a Lava Jato e é preciso fazer uma limpeza e encontrar uma boa solução” disse.

Na reunião privada com Temer, o assunto da corrupção e da Lava Jato não entrou na agenda. Tradicionalmente, portanto, uma declaração conjunta à imprensa entre dois líderes tem sua agenda coordenada e os temas cuidadosamente escolhidos. Assim, quando a cobrança sobre a corrupção chegou, os noruegueses pegaram a delegação brasileira de calças curtas.

Solberg concorre à reeleição. Poderia ter pedido sugestões a Temer sobre como ganhar a opinião pública. Mas, talvez sabendo das taxas de popularidade do brasileiro, optou por usar a viagem para mostrar ao seu público que ela não iria hesitar no plano internacional a criticar seus aliados, mesmo ao lado deles.

Mas o que ela não contou é que, apesar de chefiar um dos países menos corruptos do mundo, o Ministério Público de Oslo investiga empresas locais que são suspeitas de terem feito pagamentos de propinas para ex-diretores da Petrobras, entre eles Jorge Zelada. Sim, os escandinavos pagaram propinas.

O que ela também não disse foi que, enquanto pito público era dado, seu governo agradecia Temer pelas medidas de abertura do setor do petróleo. Para a estatal norueguesa, Statoil, o Brasil passou a ser uma prioridade.

O interesse da imprensa local norueguesa foi perto de zero, o presidente foi recebido pelo chefe interino do protocolo no aeroporto e a viagem apenas ganhou destaque quando manifestantes foram à porta da casa de Solberg protestar contra Temer.

Ainda assim, Temer insistia que a viagem havia sido “um sucesso”. Mas, para garantir esse êxito e enquanto a turbulência no Brasil continuava, o presidente se esquivava das perguntas sobre assuntos domésticos que da imprensa que o acompanhava.

Há poucos dias, José Nêumanne escreveu que, no passeio pelo Kremlin, Temer “provou que não era zumbi com o aparecimento do reflexo no espelho, mas não aproveitou para ver a própria imagem no espelho, a imagem de um presidente de um país que já foi potência e se recusa de encarar a realidade de uma vez”.

Pelo palácio real da coroa norueguesa, talvez ele tenha tido uma segunda chance de olhar sua imagem. Mas, neste sábado, Temer já estará em Brasília, exposto de novo à crise que não o abandonou.

Nesta semana, escutei em Oslo um ensinamento bastante emblemático. Contava-me uma moradora local que, quando vivemos em uma situação inóspita, nem o sol de fato aquece. Mesmo quando ele é visível em plena madrugada dos pesadelos. Não adianta se enganar e nem tentar iludir os demais sobre aqueles raios solares, frágeis.

Por isso, os noruegueses dizem que só existe dois tipos de roupas: o casaco de inverno e casaco de verão.

Pelo menos assim o rei não fica nu e nem seu povo vive de ilusões.