Suíça registra fuga de correntistas brasileiros

Jamil Chade

30 Junho 2017 | 15h36

Dinheiro de brasileiros na Suíça atinge nível mais baixo em 20 anos diante de programa de repatriação e do impacto da Operação Lava Jato

GENEBRA – O programa de repatriação de recursos do governo federal e o impacto da Operação Lava Jato afetam o fluxo de ativos de clientes brasileiros nos bancos suíços. Dados oficiais divulgados pelo Banco Nacional da Suíça (o BC local) apontam, nesta quinta-feira, que um total de US$ 2,4 bilhões em nome de brasileiros estavam depositados oficialmente nas contas do país até o final de 2016.

O volume é o mais baixo desde 1998. Em 2007, por exemplo, o volume chegava a US$ 4,6 bilhões. Em anos como 2000, o total chegou a US$ 6 bilhões. Em comparação ao ano de 2015, a redução foi de mais de US$ 1,5 bilhão.

O valor se refere ao dinheiro de correntistas que tenham declarado sua origem e se apresentado como brasileiros. A estimativa de pessoas ligadas ao mercado financeiro suíço é de que a fortuna real dos brasileiros em bancos do país europeu atinge valores bem superiores. Mas estão em nome de empresas offshore. Ainda assim, os dados do BC suíço servem como um termómetro.

Segundo a Receita Federal, por conta do programa de repatriação, foram regularizados até abril R$ 152,7 bilhões depositados no exterior. Mas permanecem fora do Brasil R$ 126,1 bilhões. O Banco Central registrou a entrada no País de R$ 26,6 bilhões. Desses, R$ 3,5 bilhões estavam na Suíça.

O programa de repatriação de recursos, realizado no ano passado, foi de fato comentado nos últimos meses pelos bancos suíços. O Credit Suisse, um dos maiores bancos do mundo, admitiu em seu informe anual que programas de regularização promovidos na América Latina em 2016 contribuíram para uma fuga de capital do banco.

A fuga teria chegado a US$ 1,5 bilhão apenas de clientes latino-americanos. Em seu informe, o banco não cita o nome de países. Mas, em 2016, Brasil e México foram os principais mercados onde se promoveu uma anistia fiscal na América Latina.

O Credit Suisse, que também vem insistindo em ter apenas clientes com recursos regularizados, é a segunda instituição financeira suíça a apontar para o mesmo fenômeno. O banco Julius Baer indicou que foi vítima de uma queda de ativos sob sua administração em relação aos clientes das Américas. Entre dezembro de 2015 e dezembro de 2016, cerca de US$ 227 milhões de clientes do continente americano deixaram o banco. “As incertezas políticas em diversos países na região, assim como programas voluntários de repatriação, continuam a pesar, em especial no fluxo de ativos”, indicou.

O fluxo de saída de recursos do Credit Suisse e Julius Baer contradizem o que a entidade que reúne os bancos suíços chegou a anunciar no início do processo de repatriação de dinheiro brasileiro.

“Os bancos suíços apoiam ativamente seus clientes para cumprir suas obrigações atuais e do passado em termos de impostos”, disse Daniela Lüpold, porta-voz da poderosa Associação dos Bancos Suíços (ABS). “Entretanto, eles fazem isso em sua própria responsabilidade”, declarou. “Em termos gerais, os bancos suíços não notaram qualquer mudança material em ativos sob sua gestão”, disse.

Alguns dos bancos chegaram a admitir que sugeriram aos correntistas que regularizem suas situações fiscais. A orientação foi dada, por exemplo, pela Associação de Bancos Privados da Suíça (ABPS), que engloba instituições mais tradicionais da praça financeira suíça, como o Lombard Odier, Mirabaud ou Pictet.

Lava Jato – Outro fator que pesou para os números de 2016 é o impacto da Operação Lava Jato. Fontes do sistema financeiro suíço indicaram ao Estado que muitos bancos passaram a ter “cautela” ao aceitar a abertura de novas contas de brasileiros, enquanto mais de mil contas foram bloqueadas pelo Ministério Público da Suíça relativas à corrupção no Brasil.

No total, US$ 1,1 bilhão está congelado e, desse montante, US$ 190 milhões já foram devolvidos ao estado brasileiro.