Walesa: “A Liberdade cobrou um preço alto”

Jamil Chade

11 Novembro 2009 | 12h12

VARSÓVIA – Na segunda-feira passada, em Berlim, o polonês Lech Walesa foi o primeiro a empurrar os dominós gigantes que marcaram as celebrações dos 20 anos da queda do Muro de Berlim. Walesa foi escolhido por ter sido o primeiro, em 1980, a desafiar o regime comunista criando um sindicato independente, o Solidariedade. Ele acabaria sendo eleito presidente da Polônia em 1990. Mas jamais conseguiu voltar a ser eleito, diante da oposição que se criou em torno dele. Eletricista e sindicalista, Walesa reconhece ao “Direto da Europa” que tem mais inimigos hoje que pessoas que o apoiam. Mas ainda assim acredita que fez a coisa certa ao desafiar o regime autoritário. Hoje, um de seus trabalhos é o de ajudar a oposição em Cuba a ser organizar contra o regime de Havana. Eis os principais trechos da entrevista:

P – Qual foi a maior conquista com a queda dos regimes comunistas para o mundo?

Walesa – A idéia de que podemos superar divisões e muros. Na realidade, isso já havia ocorrido muito antes, em 1980 na Polônia. No estaleiro de Gdansk, unimos as diferentes classes sociais sob a mesma bandeira. Até então, estávamos divididos. Mas aí decidimos caminhar juntos. Trabalhadores e intelectuais, jovens e velhos, crentes e não crentes. O sindicato Solidariedade lançou uma transformação real em nossas sociedades e, em consequência, em todo o sistema. O mundo inteiro estava ao nosso lado. O sindicato Solidariedade não tinha fronteiras. O próprio Papa João Paulo II estava ao nosso lado. Já em 1979 ele nos havia dado esperanças em sua visita à Polônia. Seu recado tocou a todos. Ele disse naquela ocasião: “Deixe o Espírito Santo tocar a todos e renovar o rosto do mundo”. Foi com esse espírito que decidimos lançar o desafio. Primeiro de mudar o rosto da sociedade polonesa e, depois, como um dominó, de toda a região.

P – Como o sr. explica que, depois de tais eventos, o sr. sequer seria eleito para um segundo mandato como presidente da Polônia?

Walesa – Quando terminanos a greve em 1980, meus amigos me carregavam em seus ombros e eu falava para uma audiência enorme. Mas eu sempre pensava: hoje me carregam nos braços. Mas amanhã poderão pedras sobre mim. E eu estava certo. Depois de dez anos, eu descobri que tinha mais oponentes que apoiadores. Entendi logo no início do processo que a mudança nos custaria muito. Entendi que a liberdade teria um preço alto. A realidade é que a liberdade cobrou um preço alto. Ser presidente não era o que eu buscava. Mas compreendi que seria necessário me lançar a isso se queríamos de fato romper com a cadeia de comando do governo comunista.

P – Mas hoje muitos no Leste Europeu estão decepcionados com suas situações, queixando-se do desemprego e das disparidades sociais, mesmo que comemorem a liberdade. Qual o caminho para superar esses problemas?

Walesa – A revolução pacífica que promovemos nos ano 90 não apenas fechou um capítulo de divisões no mundo. Ela também abriu uma nova era. A Era Global. O que se pode dizer com certeza hoje é de que precisamos de uma nova filosofia para entender e atuar dentro de um mundo globalizado.

P – Um dos focos de seu trabalho hoje é o de apoiar a democracia em Cuba. Como o sr. vê a situação em Havana hoje para a oposição?

Walesa – A oposição cubana não está unida e nem é solidária. Esse é o principal problema. Há uma falta de visão clara sobre como caminhar para a liberdade. No nosso caso na Polônia também havia divisões, diferentes avaliações sobre o que deveríamos fazer. Mas entendemos logo que o sucesso só viria com uma visão clara do futuro e unidade. Foi difícil mante-la. Mas conseguimos. Sobre Cuba, eu estou comprometido a continuar ajudando. O mundo e a região precisam da democracia e da liberdade em Cuba.

P – Em 1989, enquanto o Muro caia, tanto o sr. como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva eram sindicalistas naquele momento. Lula não venceu as eleições daquele mesmo ano e ficou claro que vocês tiveram sérias divisões. Porque não houve um entendimento naquele momento ?

Walesa – Temos muito em comum. Discussões e desacordos são parte de um mundo democrático e livre. Tenho muita admiração pelo presidente Lula.