Brasil destrói a própria imagem perante o mundo

Lourival Sant’Anna

22 Abril 2016 | 11h23

Uma presidente que denuncia ao mundo estar sendo vítima de golpe. Uma recém-inaugurada ciclovia que cai na cidade-sede dos Jogos Olímpicos, a cem dias de sua abertura. O Brasil comete suicídio, destrói a sua própria imagem perante o mundo. A expressão “falem mal, mas falem de mim” não faz o menor sentido para um país. “Nenhuma notícia, boa notícia”, é bem mais apropriado, quando não se tem a garantia de que a notícia será boa.

Ser a sede de um grande evento internacional é bom para um país quando ele está em condições de mostrar coisas boas para o mundo. Em 2009, em Londres, eu cobri a ofensiva do Brasil na sua candidatura a sede da Olimpíada, nas vésperas da reunião de cúpula do G-20. Participei de uma coletiva com o então presidente Lula, o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes. Conheci a equipe de relações públicas de um grande escritório londrino, contratado a peso de ouro para vender a imagem do Rio.

Era um momento de euforia. Naquela cúpula, vi o presidente Barack Obama apresentar Lula ao então primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, com a frase “Esse é o cara”. O Brasil, com a frivolidade que  caracteriza a sua cultura, agiu como se fosse suficiente vencer a disputa para sediar os Jogos. Como se o trabalho terminasse ali. Não. O trabalho deveria estar só começando. Era preciso o Brasil se reinventar a partir daí, superar seus severos problemas de corrupção e de gestão.

Mas não, o Brasil relaxou e continuou fazendo as coisas como sempre fez. A engenharia brasileira vem de desastres em desastres com uma frequência que não ocorre em nenhum país do mundo, até onde eu sei. E não é um problema de um governo ou de um partido. É generalizado. Aconteceu em São Paulo, com a estação Pinheiros do metrô, em janeiro de 2007, e com o monotrilho em junho de 2014; aconteceu em Belo Horizonte, com o viaduto Guararapes, em julho de 2014, e em Mariana, com a barragem da Samarco, em novembro do ano passado.

Não me consta que a engenharia brasileira seja tecnicamente inferior à de outros países. Tudo indica que esses desastres são resultado de uma combinação de falta de fiscalização, de corrupção, de falhas nos editais de licitação, impunidade e ganância desmedida de construtoras, que provavelmente economizam nos materiais e prazos para arrancar mais lucros. O setor da construção civil é tradicionalmente o epicentro da corrupção no Brasil, e os desabamentos frequentes são a face visível do terreno arenoso sobre o qual se dão os negócios entre o público e o privado neste país.

Em sua trajetória suicida, o Brasil se esforça ao máximo para desfazer uma imagem neutra ou até mesmo simpática ocasionalmente nutrida pelos estrangeiros, seja pela bossa nova, pelo futebol ou pela sua natureza exuberante. O Brasil parece gritar ao mundo: “Não se enganem. Não somos um jovem país construindo pacientemente suas instituições. Somos apenas um bando de irresponsáveis delirantes”.

Não bastasse o colapso econômico e moral, a presidente agora se ocupa em proclamar ao mundo um golpe em andamento no Brasil. Todos têm o direito de se defender. Mas não de ignorar suas responsabilidades — até o fim. O discurso da presidente confunde a audiência internacional, que não tem a obrigação de acompanhar em detalhe o que se passa no Brasil, de saber que o processo de impeachment segue a Constituição, e que as instituições estão em pleno funcionamento. Dilma Rousseff, em seu momento de máximo egoísmo, reforça preconceitos contra o Brasil, que no passado foram em grande medida justificados, pelas ditaduras de Getúlio Vargas — do qual aliás ela é admiradora — e dos militares, contra a qual ela lutou, não exatamente para instituir uma democracia, mas substituí-la por uma outra ditadura, a do proletariado. Um governante não tem o direito de prejudicar os interesses de seu próprio país, para buscar uma saída honrosa para um drama por ele próprio desencadeado.

Sócrates foi vítima de um julgamento injusto, e condenado ao envenenamento por cicuta. Na Grécia antiga, a pena de morte, quando imposta a alguém da importância de Sócrates, campeão olímpico, herói de guerra e filósofo, era muitas vezes pró-forma. Facilitava-se a fuga do condenado, convertendo-se assim informalmente a pena de morte em ostracismo. Quando vieram, no meio da noite, abrir a cela para Sócrates fugir, ele se recusou: “As leis de Atenas sempre me beneficiaram. Não vou desobedecê-las agora que elas se voltam contra mim”. E obrigou seus algozes a cumprir sua pena de morte.

Mesmo quando nos sentimos injustiçados, ou talvez principalmente nesse momento, não podemos abandonar nossa coerência. Não é assim que se salva uma biografia.