Chile atrai imigrantes e se depara com preconceito

Chile atrai imigrantes e se depara com preconceito

Lourival Sant’Anna

18 Novembro 2017 | 21h34

Quando digo que eu não vinha ao Chile desde 2001, muitos chilenos me perguntam o que mudou nesses 16 anos. Respondo que a mudança mais aparente é a presença maciça de imigrantes. Eles concordam. Esses imigrantes vieram de vários lugares. Mas, quando falamos de algo “aparente”, estamos falando principalmente das pessoas negras. Aqui, antes, não havia negros. “Junto com os negros veio o racismo”, me disse um dentista chileno de 31 anos. “Antes, não havia contra o que ser racista.”

Imigrante colombiano, com as cores do Brasil, no metrô de Santiago.
Foto: Lourival Sant’Anna

Com certeza, a presença dos negros, vindos do Haiti, República Dominicana, Colômbia e Venezuela, entre outros, criou mais oportunidades para os chilenos “exercitarem” esse traço de sua cultura. Mas ele já estava lá. Assim como os argentinos, muitos chilenos — não todos, e nem sei se a maioria — cultivam uma certa identidade “inglesa”, ou em geral europeia. Isso em razão de imigração de ingleses, alemães, italianos, etc., da hierarquia de valores nascida da colonização e da comparação com o Brasil.

Um almirante argentino na virada do século 19 para o 20 cunhou a expressão “China negra”, para se referir ao Brasil. Para compensar o fato de serem menores que o Brasil, Argentina e Chile procuraram construir para si um critério de superioridade baseado na cor da pele. De novo: não são todos os argentinos e chilenos, e nem sei se são a maioria. Mas isso está presente. Como está presente o preconceito racial dentro do próprio Brasil, com seu imenso contingente de negros.

A imigração é um tema nesta eleição de domingo, que foi explicitado com o nebuloso “atentado” ocorrido na quarta-feira. O senador Fulvio Rossi, por sinal neto de italianos, e que defende a seleção dos imigrantes e a expulsão imediata dos que cometam crimes, diz ter sido esfaqueado no estômago e golpeado na cabeça por um homem negro que teria gritado, com sotaque colombiano: “Nós te advertimos”. Ele dizia que vinha sofrendo ameaças.

A polícia anunciou não ter suspeitos. Não havia câmeras no local, um depósito de material de campanha na casa do pai falecido de Rossi. O senador, que é médico, foi ferido superficialmente no estômago. E continuou internado no hospital em Iquique, no norte do Chile, mesmo depois de ter recebido alta, na quinta-feira, dando a impressão de que queria capitalizar ao máximo o incidente, nas vésperas das eleições. Eu estava com um jornalista chileno no momento em que saiu a notícia. “Eu trabalhei com ele. É um mitômano”, me disse o jornalista.

Neste sábado, o filho do senador disse que o “suspeito” trabalhou na campanha de seu pai, e agora trabalha na de seu adversário, Jorge Soria, candidato ao Senado por um partido regional. Rossi atribuiu o ataque ao crime organizado no norte do Chile, afirmando que metade das armas está nas mãos de chilenos e a outra metade, de colombianos. O embaixador da Colômbia criticou as declarações do senador, que segundo ele criam “uma inconveniente atmosfera de estigmatização”.

No norte do Chile, 12% da população já é composta por imigrantes. Relatório da Organização Internacional do Trabalho, publicado em maio, afirma que o Chile foi o país da América Latina cuja proporção de imigrantes mais cresceu entre 2010 e 2015: 4,9% ao ano; seguido pelo México, com 4,2%; Brasil, com 3,8%, e Equador, com 3,6%. No período, seu número aumentou em 100 mil, de 369.436, para 469.436, ou 27%.

É resultado da prosperidade chilena. Segundo o Fundo Monetário Internacional, a renda média chilena atingiu US$ 14.310 em 2016, atrás apenas da uruguaia, US$ 17.250; e na frente da argentina, US$ 14.060, e da brasileira, US$ 10.020. Pelo critério do poder de compra, a renda per capita chilena supera a uruguaia. As taxas de escolarização do Chile são as mais altas da América Latina, equivalentes às da Austrália e superiores às da Grã-Bretanha. A expectativa de vida chilena, 80 anos, fica atrás apenas do Canadá nas Américas:  82. A do Brasil é 75 anos e a dos Estados Unidos, 79.

Antes no Partido Socialista, da presidente Michelle Bachelet, hoje Rossi é independente, mas apoia o candidato dela, Alejandro Guillier. Mas suas visões sobre a imigração se aproximam mais do candidato da oposição e provável vitorioso no primeiro e no segundo turno, neste domingo e no dia 17 de dezembro, respectivamente: Sebastián Piñera, um bilionário de centro-direita, que foi presidente entre 2010 e 2014, também defende a seleção dos imigrantes, segundo os “interesses do Chile”. Piñera reconhece que a imigração interessa ao Chile para ajudar a custear seu debilitado sistema previdenciário, diante da queda na natalidade. Mas promete retomar seu plano Fronteira Norte Segura, argumentando que o Chile tem quase mil quilômetros de fronteira com o Peru e a Bolívia, “os dois principais produtores de coca do mundo”.

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