Estado Islâmico supre ‘inseguranças econômica, psicológica e teológica’

Lourival Sant’Anna

26 Abril 2016 | 18h58

O Estado Islâmico tem sido capaz de recrutar jovens no Ocidente porque ele atende três tipos de insegurança: econômica, teológica e psicológica. Essa é a análise do sociólogo turco Mustafa Gurbuz, pesquisador do Instituto Rethink e professor da Universidade Americana. Conversei com ele nesta manhã em Washington na sede do Rethink, pertencente ao movimento turco Hizmet, que prega um Islã moderado.

A insegurança econômica é bastante evidente: os jovens são atingidos em cheio pelo desemprego, associado à exclusão, à vida em guetos e à falta de perspectivas. A ela se soma a condição psicológica dos adoelscentes e jovens, com sua necessidade natural de enfrentar as autoridades, de se radicalizar e buscar um sentido para a vida.

A religião, observa Gurbuz, ocupou o lugar que as ideologias, como o socialismo e o comunismo, tinham nos anos 60 e 70, como expressão de radicalismo e de sentido para vida. O que o pesquisador define como “insegurança teológica” é a falta de legimitidade do establishment religioso. Os governos muçulmanos geralmente nomeiam o clero e o mantêm em suas folhas de pagamento. No caso da Turquia, por exemplo, o poderoso Diretório de Assuntos Religiosos controla as mesquitas e os líderes religiosos.

Essas intermediações geram suspeitas de manipulação do Islã. O que o salafismo, ou radicalismo islâmico, oferece, diz o pesquisador, é uma relação supostamente direta com o Alcorão, por meio de sua mensagem literal, sem interpretações. “A legitimidade dos salafistas e o seu apelo estão em oferecer uma volta às fontes originais do Islã”, explica Gurbuz. “Os salafistas dizem ao jovem: ‘Você é a autoridade. Leia o texto e tire suas conclusões’”.


O Estado Islâmico ainda oferece um diferencial. A Al-Qaeda recruta seus ativistas para agirem no próprio lugar. Já o EI os leva a viajar para a Síria. “A mensagem é a de que os jovens precisam vir imediatamente para a Síria, para salvar mulheres e crianças muçulmanas da opressão, de uma ameaça existencial. Ao voar para a Síria, ao cruzar sua fronteira, eles se tornam mais religiosos.” É como e a travessia tivesse um significado mágico, confirmando que se trata de uma missão.

Ultimamente, com o cerco das forças de segurança europeias, tem sido mais difícil para os seguidores do EI viajar para a Síria. O grupo tem se adaptado a isso instruindo os jovens a atuarem onde estão. Mas aqui também há um diferencial com relação ao seu concorrente. As revistas, fotos e vídeos do EI são muito mais chamativos do que o material de propaganda da Al-Qaeda, observa o especialista, que chama isso de “cool factor” (“fator legal”).

Têm surgido nas comunidades muçulmanas adultos moderados que tentam evitar a radicalização, afirmando que ela não é respaldada na mensagem do Islã. As publicações estão trazendo listas de nomes dessas pessoas, com seus filhos e lugares onde moram, e recomendando aos militantes que sejam alvos de seus ataques. É uma forma de silenciar as vozes moderadas da comunidade.

*Viajei a convite do movimento Hizmet.