Líder religioso suspeita de ação terrorista do governo turco

Lourival Sant’Anna

27 Abril 2016 | 22h02

O líder dissidente turco Fethullah Gulen lançou a suspeita de que agentes do governo turco possam estar por trás de atentados terroristas contra alunos e professores da rede de escolas do movimento que ele lidera, Hizmet. Em uma entrevista que fiz com ele no início desta tarde em sua casa em Sailorsburg, na Pensilvânia, o líder sufi — versão moderada do Islã — citou como exemplo um atentado ocorrido no dia 31 de março em Mogadiscio, na Somália, que matou cinco pessoas e feriu seis.

“O Al-Shabab (grupo terrorista somali) disse que não foram eles que executaram o ataque contra a van escolar”, afirmou o líder sufi. “O governo turco pressiona os governos a fechar nossas escolas e, como não tem conseguido, provavelmente está tentando intimidar os professores e alunos.” O Hizmet (“Serviço”, em turco) possui 1.400 escolas em 170 países, incluindo uma em São Paulo.

Por causa de suas críticas ao crescente autoritarismo, à corrupção e ao uso político do Islã por parte do presidente Recep Tayip Erdogan, Gulen e seu movimento passaram a ser tratados como principais inimigos pelo governante turco, que os acusa de terrorismo. A rede de televisão Samanyolu e o jornal Zaman, ligados ao movimento, foram fechados nos últimos meses, e as escolas na Turquia — mais de cem — estão sofrendo intervenção.

A denúncia foi parte de uma longa resposta a uma pegunta que fiz, sobre por que o Islã tem servido com tanta frequência de justificativa para a violência e o autoritarismo. “Existem governantes que defendem seus interesses dando apoio a grupos terroristas, como Estado Islâmico, Al-Qaeda e Frente Al-Nusra, para derrubar (o ditador Bashar) Assad”, respondeu Gulen, auto-exilado nos EUA desde 1999. Ele não citou países, mas há evidências de que famílias ricas próximas às monarquias da Península Arábica financiaram esses grupos, e de que o governo turco facilitou o trânsito de combatentes, de armas e de munição na fronteira entre a Turquia e a Síria. “O mesmo se aplica ao Boko Haram (na Nigéria) e ao Al-Shabab.”


Gulen, que nunca se casou, vive recluso em uma propriedade de 28 acres na zona rural da Pensilvânia, onde dá aulas de teologia para seguidores turcos. Ele contou que, pouco antes de eclodir a Primavera Árabe, em 2011, recomendou ao então chanceler turco, Ahmet Davotoglu (hoje prímeiro-ministro) que incentivasse a democratização da Síria. Na época, Erdogan era muito próximo de Assad. Gulen diz que propôs uma democratização gradual, como a que aconteceu com a Turquia a partir de 1946. “Eles pensaram: ‘Por que vamos ouvir um pregador?’”

Para Gulen, o radicalismo islâmico tem crescido por causa da falta de Estados fortes para contê-lo. “Se os Estados Unidos, a Rússia e a União Europeia se unissem, poderiam derrotar o terrorismo”, estima o líder religioso. “Outro problema diz respeito ao mundo muçulmano”, considera ele. “Há muitos que não conhecem as fontes do Islã — o Alcorão, a Sunna (práticas e dizeres do profeta Maomé) e a vida dos quatro califas (sucessores)—, e têm reações irrefletidas.”

Gulen, de 75 anos, veio para a Pensilvânia em 1999, para uma cirurgia do coração, e nunca mais voltou para a Turquia. Diabético, sua saúde está debilitada. Segundo seus auxiliares, ele só saiu da propriedade onde vive entre 15 e 20 vezes nesses 17 anos. A violência cometida em nome do Islã o deprime, dizem pessoas que convivem com ele. Gulen toma 40 remédios por dia. “Por causa da minha idade e dos ataques terroristas na Turquia e nos outros países, meu sistema imunológico está quase falido”, reconheceu o religioso, ostentando grandes olheiras. “Estou muito triste.” Ele pediu para não ser fotografado nem filmado.

A entrada da propriedade onde Gulen vive e trabalha é protegida por uma cancela e seguranças. Um carro da polícia fazia patrulha dentro do local. Ele teme ser alvo de um atentado. Além do casarão ocupado por Gulen, há outras nove casas, que abrigam atualmente 20 estudantes e suas famílias. Gulen lhes dá aulas de religião pelas manhãs, de segunda a sábado — a menos que a saúde o impeça. Nas aulas, ele explora interpretações dos versos do Alcorão e sua ligações com as ciências. Os alunos ficam em média cinco anos. Ao mesmo tempo, frequentam cursos de mestrado ou doutorado em universidades da região, para depois se tornarem professores universitários.

A propriedade, que inclui um grande lago e bosques, foi adquirida em 1992 por turcos que moravam na região, para servir de acampamento e local de encontro para a comunidade turca. Gulen visitou o local em 1996. Seu nome — Chestnut Camp (Campo de Castanha) — chamou sua atenção. O local onde Gulen trabalhava, em Izmir, na Turquia, chamava-se Kestane Pazari, (Mercado da Castanha).

Além das aulas, ele grava vídeos com pregações, que veicula no YouTube. E já publicou 68 livros. No mais importante deles, Colinas de Esmeraldas do Coração, explica didaticamente os conceitos do sufismo, corrente moderada do Islã fundada por Mevlana Celaleddin Rumi no século 13 na Turquia. Dessa tradição provêm os desvishes, que expressam a espiritualidade por meio da dança e da música. Mas a editora de seus livros, Kaynak, também sofreu intervenção do governo, no início do ano, como parte do crescente cerco ao movimento.

*Viajei a convite do movimento Hizmet.