Lula, Kadafi, Odebrecht e outros “irmãos”

Lourival Sant’Anna

13 Dezembro 2017 | 05h47

A reportagem desta semana de Veja, sobre a suposta doação de US$ 1 milhão do ditador líbio Muamar Kadafi à campanha de Lula em 2002, me remete a dois momentos da minha cobertura da guerra civil na Líbia, em 2011, um em Benghazi, o outro em Trí­poli: a abstenção do Brasil na votação do Conselho de Segurança da ONU que autorizou a Otan a intervir para evitar o massacre de civis, e a reação da Odebrecht à minha reportagem sobre a ocupação de seus canteiros de obra por milicianos pró-Kadafi.

Eu estava em Benghazi, “capital” dos rebeldes líbios, em março de 2011, quando um comboio do Kadafi avançava sobre a cidade de 1 milhão de habitantes, tradicional reduto oposicionista, para dizimar sua população. Na Europa e nos Estados Unidos, a situação fez soar o alarme, porque lembrava o trauma do cerco e massacre de Srebrenica, na Bósnia, em 1995, dos muçulmanos pelos sérvios. A intervenção foi aprovada. O Brasil, sob Dilma Rousseff, se absteve.

Com o mandato da ONU, aviões franceses destruíram o comboio. Em seguida eu o percorri. Tinha 30 km. Contei 25 tanques, 24 caminhões, três deles com baterias de 40 foguetes Grad. No caminho, tive dificuldade de passar pelos controles rebeldes, por ser brasileiro. Caminhando por entre o arsenal destruído, entrevistei vários líbios. Ao saber que era brasileiro, me perguntaram: “Por que o Brasil se absteve? Nós gostávamos de vocês. É pelo dinheiro do Kadafi, não é?”

Sim, era pelo dinheiro, sabemos agora. Além da identificação ideológica, da oportunidade de espezinhar os Estados Unidos. As mesmas fantasias e esquemas que levaram os petistas a apoiar os regimes autoritários e corruptos da Síria, Rússia, Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador, Irã, Angola e até mesmo Coreia do Norte.


Quando o comboio de Kadafi se aproximava de Benghazi, células adormecidas compostas de espiões e de simpatizantes do regime líbio despertaram, e saíram abrindo fogo e promovendo atentados na cidade. Numa dessas ações, agentes armados passavam em uma das caminhonetes Toyota Land Cruiser beiges, típicas do regime, quando viram um jovem casal e uma criança pequena saindo de casa, para fugir da cidade. Os vizinhos testemunharam quando a caminhonete deu ré, os homens dispararam seus fuzis contra a pequena família, e seguiram seu caminho.

Encontrei a família na UTI do Hospital Al-Jalal. O pai tinha morrido, a mãe estava com parte de seu cérebro exposto, em estado vegetativo, em uma cama ao lado da de seu filho, Mohamed Asheraf, de 5 anos. O menino, que levou um tiro de fuzil no peito, gemia de dor.

Naquela noite, não consegui dormir, pensando que, se a votação no Conselho de Segurança não tivesse se arrastado tanto, se a Otan tivesse intervindo algumas horas antes, Mohamed não teria levado um tiro de fuzil e ainda teria sua família. Nas insônias, nossa percepção da realidade muda, e sofri de pensar que estava ali, arriscando a minha vida, longe dos meus filhos, para nada, se meu país não entendia o que se passava na Líbia.

Mais adiante, em setembro, em seguida à queda de Kadafi, fiz uma reportagem nos canteiros de obra da Odebrecht em Trípoli. Conforme os rebeldes avançavam em direção à capital, o ditador fez um pacto com os criminosos comuns. Eles foram soltos e receberam armas. Em troca, deveriam defender o regime. Nessa campanha, o que pudessem saquear, seria deles. Esses milicianos ocuparam os canteiros de obras da Odebrecht e os transformaram em seus alojamentos e bases.

Quando os rebeldes avançaram sobre Trípoli, os milicianos fugiram, deixando para trás uniformes, apetrechos e mantimentos. Levaram computadores, frigobares, aparelhos de ar-condicionado, incluindo sua tubulação sobre o teto, fogões industriais, fios elétricos e cadeiras. Ou seja, tudo o que podiam carregar.

Fiz a reportagem e, como sempre, ouvi a empresa, que tentou a todo custar negar que se tratasse de suas instalações. A Odebrecht não tinha interesse em que essa história fosse contada. E tentou, inutilmente, pressionar o Estadão a não publicar minha matéria, que saiu na íntegra no dia 10/9/11. Em 25 anos, nunca vivi nenhuma situação no Estadão em que interesses econômicos tenham impedido a publicação de qualquer reportagem.

Olhando para trás, sabendo da possível confissão de Antonio Palocci, das supostas propinas que a Odebrecht teria pagado a Lula e a outras figuras do PT para obter esses contratos na Líbia e em tantos outros países da África e da América Latina, fica uma sensação de pesadelo em relação a essa aventura insana que foi a política externa daquele período.

Pelo menos para mim, que cobri também o primeiro giro de Lula pela África, em 2003, primeiro ano de seu governo, quando esses esquemas começaram a ser organizados; e a Cúpula América Latina-África, na Isla Margarita, Venezuela, em 2009, quando ele saudou líderes autoritários e corruptos, como Kadafi, Jacob Zuma, Hugo Chávez e Evo Morales como seus “irmãos”.