Mesquita foi atacada depois que Canadá prometeu acolher refugiados barrados nos EUA

Mesquita foi atacada depois que Canadá prometeu acolher refugiados barrados nos EUA

Lourival Sant’Anna

01 Fevereiro 2017 | 21h01

Alexandre Bissonnette AFP PHOTO

Alexandre Bissonnette
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O atentado contra uma mesquita no domingo em Quebec tem uma relação — ainda que indireta — com o decreto do presidente Donald Trump que baniu a entrada de muçulmanos provenientes de sete países árabes. O ataque, que deixou seis mortos e oito feridos, foi realizado depois que o ministro da Imigração do Canadá, Ahmed Hussein, anunciou, no domingo, 29, que o país acolheria os refugiados barrados nos Estados Unidos pelo decreto de dois dias antes.

O autor do atentado, Alexandre Bissonnette, declarava-se em sua página do Facebook (tirada do ar depois do ataque) admirador de Trump e da líder ultranacionalista francesa Marine Le Pen, que também defende a expulsão de imigrantes, em especial muçulmanos. Bissonnette, de 27 anos, estudante de ciências sociais na Universidade Laval, era também seguidor de um grupo do Quebec que critica o multiculturalismo no Canadá. Ele telefonou para a polícia para assumir o atentado.

O Canadá tem uma forte tradição de acolher imigrantes. De sua população de 36 milhões, 1,1 milhão são muçulmanos. O primeiro-ministro Justin Trudeau declarou: “Os muçulmanos canadenses são parte importante de nosso tecido nacional. Estes atos sem sentido não têm espaço em nossas comunidades, cidade ou país”. Houve muitas manifestações de apoio da população local às vítimas, incluindo uma vigília na frente do Centro Cultural Islâmico de Quebec, onde Bissonnette entrou atirando aleatoriamente, na noite de domingo.

Mas a hostilidade contra os muçulmanos vem crescendo. Em novembro de 2015, uma mesquita no Estado de Ontario foi destruída por um incêndio criminoso. E em junho de 2016, durante o mês do Ramadã, em que os muçulmanos fazem jejum, foi deixada uma cabeça de porco — cujo consumo é proibido pela religião — na mesma mesquita de Quebec atacada no domingo.

Trump, Le Pen e outros líderes ultra-nacionalistas europeus não defendem atos de violência. Mas suas palavras — e, agora, os atos do novo presidente americano — criam um ambiente mais favorável para ataques violentos, ao conferir legitimidade política a atitudes hostis e discriminatórias.

(Colaborou Bruna Martins)