Se vier ao “Chile moderno”, traga a nota fiscal do seu celular

Se vier ao “Chile moderno”, traga a nota fiscal do seu celular

Lourival Sant’Anna

13 Novembro 2017 | 22h36

Cheguei nesta segunda-feira ao Chile, para cobrir as eleições do próximo domingo, 19, depois de um longo intervalo: minha última cobertura aqui foi de uma reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento, em março de 2001. Como em toda cobertura, minha primeira medida foi tentar comprar um chip de celular local no aeroporto. E aí tive uma surpresa: desconsolada, a vendedora de uma loja especializada me disse que, para usar um celular comprado em outro país, é preciso habilitá-lo perante uma operadora local, e o processo demora cinco dias úteis. Como ia ficar dez dias, desisti.

Tentei de novo no centro, em quiosques de operadoras na Estação Central e em barracas um pouco mais informais no Mercado Persa, ali perto. Um vendedor venezuelano, que imigrou do Panamá há três meses, tentou a todo custo fazer o chip funcionar no meu celular. Ele funcionava no dele, mas quando era instalado no meu, a conexão caía. Fui até o escritório central da operadora Movistar, e lá uma funcionária, que agora sei que estava mal informada, me deu um papelzinho com instruções.

Entrei no site indicado e segui os passos, que envolvem vasculhar as entranhas do aparelho, para descobrir seu IMEI, que é um número que o identifica, tirar fotos da tela mostrando esse número e o passo dado para chegar até ele (digitar *#06#). O formulário no site da operadora está configurado para só aceitar como número de documento de identidade a RUT (Rol Único Tributário), o CPF chileno. Como exigem o scan do documento, procurei na minha habilitação algum número que tivesse a mesma quantidade de algarismos do RUT: 10.

Não contentes, eles exigem um scan da nota fiscal do aparelho. Pois é. Encontrei exigências dessa ordem na primeira vez que fui ao Irã, em 2006. Em 2009, já se podia comprar chips locais em Teerã sem essa burocracia. Na Venezuela, a lei prevê um controle parecido, mas é fácil de burlar: o país está caindo aos pedaços, e as pessoas encontram jeitinhos para ganhar algum dinheiro.


A funcionária me disse que levava 48 horas “úteis”. Estou escrevendo na noite do sábado, e até hoje meu celular não foi habilitado. No dia seguinte, terça, um colega chileno me apresentou outro site, que aceitava passaportes estrangeiros e prometia habilitar em 24 horas. Também não tive resultado até hoje. Ou seja, na melhor das hipóteses, leva cinco dias úteis mesmo.

Soube que esse novo procedimento foi criado por uma portaria em setembro, para coibir a compra de celulares no exterior.

Quando um repórter brasileiro — e de outros países sul-americanos — vem ao Chile, traz pautas relacionadas com as experiências chilenas com reformas já maduras, ainda em debate nos vizinhos. O Chile é um laboratório de experimentos liberais, uma plataforma de exportação, uma referência de modernidade para a região.

Mas, ao mergulhar na vida cotidiana, você descobre que nenhum país tem um passado ibérico impunemente.

(Obs.: Uma primeira versão deste post foi publicada no dia 13/11/2017, e atualizada dia 18/11/2017.)