Trump ignora inteligência e militares em ataque malsucedido no Iêmen

Trump ignora inteligência e militares em ataque malsucedido no Iêmen

Lourival Sant’Anna

02 Fevereiro 2017 | 18h39

Steve Bannon (direita) presencia conversa telefônica de Trump com primeiro-ministro da Austrália, Malcolm Turnbull Trump speaks on the phone with Australia's Prime Minister Malcolm Turnbull Foto: Mandel Ngan/ AFP

Steve Bannon (direita) presencia conversa telefônica de Trump com primeiro-ministro da Austrália, Malcolm Turnbull.
Foto: Mandel Ngan/ AFP

O presidente Donald Trump estreou na área da defesa com uma malsucedida operação militar no Iêmen, decidida com seu estrategista de propaganda e ignorando as informações de inteligência. Segundo o governo iemenita, 16 civis foram mortos, incluindo uma menina de oito anos, com direito a cidadania americana. Um integrante da unidade de elite Seal da Marinha americana e 14 homens identificados como combatentes da Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP) também foram mortos.

A missão foi aprovada em um jantar no dia 25, com a presença de Steve Bannon, coordenador de estratégia da campanha de Trump, e do genro de Trump, Jared Kushner, ambos agora seus conselheiros na Casa Branca. Antes de se juntar ao governo, Bannon era diretor do site Breitbart News, que se dedica a difundir propaganda da extrema direita nacionalista, com aparência de notícia. Ele tem participado de todas as reuniões importantes e conversas telefônicas de Trump com governantes estrangeiros.

No sábado, o presidente reestruturou o Conselho de Segurança Nacional para dar um assento a Bannon, e diminuir a presença dos comandantes das Forças Armadas e do diretor de Inteligência Nacional, que agora participarão apenas “quando for necessário”. A mudança simboliza a ênfase que Trump deseja dar ao critério de relações públicas de suas ações na área de defesa, em detrimento das informações e recomendações dos profissionais.

O primeiro resultado disso se viu no domingo. As forças especiais não dispunham de informação suficiente sobre o terreno que iam atacar, na província de Bayda, sudoeste do Iêmen. Antes de sua aproximação, os moradores do vilarejo de Yaklaa, alvo da operação, perceberam que ela ocorreria, porque drones sobrevoaram a área bem mais baixo que o normal. O terreno estava minado e os militares americanos foram rechaçados com intenso tiroteio. O contato durou 50 minutos. Um avião enviado para dar reforço teve de ser destruído e deixado no terreno. Segundo fontes militares ouvidas pelo jornal The New York Times e pela agência Reuters, não houve informações, preparativos e apoio terrestre necessários para uma operação como essa. Eles deram a entender que tudo o que poderia dar errado deu, e os oficiais responsabilizam o presidente pelo fracasso.

A menina morta era filha de Anwar al-Awlaki, cidadão americano e propagandista da Al-Qaeda, morto em um ataque com drones americanos no Iêmen em 2011. O avô da menina, Nasser al-Awlaki, disse ao jornal The Guardian que o vilarejo não é reduto da AQAP, mas sim de líderes tribais aliados do governo internacionalmente reconhecido do Iêmen,  derrubado em janeiro de 2015 pelo movimento Houthi, patrocinado pelo Irã. Os xiitas representam 44% da população do Iêmen. Os outros 56% são sunitas. Com apoio dos Estados Unidos, a Arábia Saudita tem bombardeado posições dos rebeldes houthis para ajudar o presidente Abed Mansour Hadi, apoiado pela maioria sunita, a restaurar o controle sobre o país.

(Colaborou Bruna Martins)