Facebook, a próxima Microsoft?
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Facebook, a próxima Microsoft?

Lúcia Guimarães

25 Janeiro 2018 | 21h28

 

A gripe deste inverno nos EUA é a mais letal desde que o país passou a monitorar os surtos sazonais, há treze anos. O governo tem apelado à população para tomar a vacina e o surto ainda está em curva ascendente. A vacina distribuída este ano só é eficaz para cerca de 30% dos vírus da temporada e a única chance de diminuir a gravidade dos sintomas e o risco de morte, especialmente entre idosos e crianças, é se vacinar, explicam os médicos.

Pois, no começo da semana, um dos posts mais compartilhados no Facebook anunciava que a vacina é que está causando a gripe, “de acordo com um médico do CDC”, a agência federal de saúde. Era uma perigosa notícia falsa, originada num site notório por fabricar mentiras e conspirações. Mas, no pântano algorítmico do Facebook, o boato tomou vida, além de outras “reportagens” sobre a Casa Branca “proibir a vacina” ou “proibir vacinações” em geral. O site, cujo nome prefiro omitir para não aumentar a contaminação da gripe informativa, foi banido pela plataforma de publicidade do Google no ano passado. É considerado por analistas digitais europeus uma das usinas terceirizadas de desinformação pela Rússia.


No dia 11 de janeiro, Mark Zuckerberg, anunciou uma grande mudança na sua plataforma com 2 bilhões de usuários. O Facebook passaria a privilegiar menos notícias, o news feed, e dar ênfase a postagens pessoais de amigos. Ou seja, mais fotos de férias em Fernando de Noronha, na linguagem do site “interações sociais com significado”, menos “conteúdo relevante”. A notícia tirou o sono de empresas de jornalismo já devastadas pelo estrago que o duopólio Facebook e Google mantém sobre receitas de publicidade.

Mas a decisão que Zuckerberg descreveu como prejudicial à receita publicitária da empresa, a curto prazo, acontece depois do ano que marcou uma mudança da opinião pública sobre o Facebook. O ponto de virada, como sabemos, foi a revelação de que a interferência russa na campanha presidencial americana de 2016 contou com ferramentas oferecidas pela plataforma fundada por Zuckerberg, tanto na compra de publicidade, como na produção de posts orgânicos de bots russos.

O debate que começou por indagar se o excesso de tempo na rede social faz mal à saúde mental evoluiu para, como proteger a democracia dos exércitos da desinformação? No dia 19, o Facebook anunciou nova mudança para combater as notícias falsas, pedindo aos usuários para votarem na credibilidade de sites de informação e foi imediatamente criticado. Se, por um lado, Zuckerberg admite o papel de seu algoritmo na seleção de notícias consumidas por 2 bilhões de usuários, escreveu Will Oremus, da Slate, a estratégia de combater a desinformação é, à primeira vista, ingênua e simplista e corre o risco de premiar a polarização que já infesta a plataforma. A campanha de reparação de imagem continuou, dias depois, com o comunicado do executivo Samidh Chakrabarti, responsável por políticas globais da empresa, reconhecendo que as redes sociais “espalham desinformação e corroem a democracia.” É uma distância considerável da defesa de Mark Zuckerberg, logo após a eleição de novembro de 2016, classificando de “maluca” a sugestão de que sua plataforma teria influenciado a campanha.

Tim Wu

No livro Impérios da Comunicação, Tim Wu, o criador do conceito de neutralidade da rede e professor especialista em leis antitruste na Escola de Direito da Universidade de Columbia, narrou a história de ascensão e queda de conglomerados que controlaram a comunicação nos Estados Unidos, ao longo do século 20. Ele é também autor de Mercadores da Atenção, uma história da publicidade, desde o século 19 até a era digital do grátis no século 21.

Numa longa entrevista recente ao podcast da revista Vanity Fair, Wu especulou sobre os ciclos de formação de monopólio e regulação cuja crônica narrou em Impérios da Comunicação. E ele suspeita que o Facebook é o gigante mais vulnerável se o Departamento de Justiça americano demonstrar algum apetite antitruste. Wu acha que a ação recente movida pelo governo federal contra a fusão da AT&T com a Time Warner pode ser um primeiro sinal. Mas ele não acredita que o Facebook seria objeto de uma ação como a que partiu o monopólio de telefonia da AT&T em sete companhias, em 1982.

A comparação que Tim Wu considera mais apropriada é com a Microsoft da virada do século, uma companhia cujas pegadas gigantescas no começo da era digital e práticas monopolistas foram objeto de um longo litígio com o governo federal que durou treze anos, mas que não foi repartida como a AT&T. Ela foi castigada mas “se tornou um gigante gentil,” diz Wu, que foi por dois anos, assessor econômico do governo Obama para assuntos de concorrência.

O raciocínio comum quando o governo se debruça sobre monopólios é perguntar: o que uma corporação oferece ao consumidor e qual a concorrência que ela impede? No caso da Amazon, outra empresa cujo gigantismo assusta, lembra Wu, ela favorece o consumidor, baixando o preço de produtos, embora seja frequentemente criticada por esmagar pequenos comerciantes.

Mas o caso do Facebook, acredita o autor, é diferente. Mark Zuckerberg compra (Instagram) ou intimida (Snapchat) concorrentes inovadores. Será que os internautas querem uma nova plataforma social? E se ela for, como o Facebook, criada num dormitório universitário ou numa garagem, teria socorro regulatório para crescer? Tim Wu pergunta, em tom de humor, se o “mau karma” do Facebook no último ano, vai pesar no seu destino. Ele há de fazer mais argumentos, no livro que está acabando de escrever, The Curse of Bigness (A Praga do Grande).