‘Hoje, eu olho para aqueles anos e pergunto: quem era aquela mulher?’
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‘Hoje, eu olho para aqueles anos e pergunto: quem era aquela mulher?’

Hoje, peço licença para contar a história da Patrícia*, uma das muitas mulheres que sofrem violência todos os dias no Brasil

Lúcia Guimarães

08 Março 2018 | 03h00

Foto: Arte/Estadão

Geralmente você lê sobre o mundo aqui, mas hoje vou emprestar minha coluna para a Patrícia*, de 60 anos. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida – se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos – homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

Eu nasci em São Paulo, mas vivo numa pequena cidade na Região dos Lagos, no litoral do estado do Rio de Janeiro. Há cinco anos, eu passei um sábado inteiro chorando no escritório da empresa que eu tinha em sociedade com o meu marido, até juntar coragem para me separar. Eu já tinha criado três filhos dele, mais três do meu primeiro casamento e só o meu caçula ainda morava em casa, perto de se casar.

Dos vinte anos que o meu casamento durou, os doze finais foram muito difíceis. Nós tínhamos nos conhecido numa empresa de material de construção, em São Paulo, e cheguei a ser gerente nacional da empresa em Cascavel, no Paraná. Mas surgiu uma oportunidade de abrir uma empresa no estado do Rio para prestar serviços para a cidade e nos mudamos. Nós vivíamos num sítio grande, com campo de futebol e a casa estava sempre cheia, no fim de semana. Eu peguei meu marido numa destas tardes, mais de uma vez, com uma das amantes que ele tinha.

As traições, o abuso verbal e a violência começaram, acho, depois que ele deixou de depender de mim. Ele era trabalhador e vinha de uma origem humilde. Eu vinha da classe média, meu pai tinha uma oficina. Ele pediu dinheiro emprestado ao meu pai para abrir a empresa, que existe até hoje. Havia um terceiro sócio, mas eles tiveram uma briga, e ficamos os dois. Uma vez, caiu nas minhas mãos, por engano, documentos de um processo criminal em Cascavel. Ele teve uma briga de trânsito e agrediu tanto a mulher do motorista do carro que ela passou por várias plásticas. Foi condenado e não cumpriu pena, porque, na época, o crime prescreveu. Quando eu confrontei meu marido com a história, ele começou a mudar. Demitiu meu filho e minha filha que trabalhavam conosco. Depois, ele teve mais dois processos por agressão no estado do Rio. E dos 15 processos movidos contra a nossa empresa, 12 foram por assédio verbal ou agressão.

Uma vez ele me bateu dentro da empresa. Um motorista tentou intervir, mas eu disse a ele que ia destruir sua vida se envolvendo na briga. Eu cheguei a ir a uma delegacia da cidade em outra ocasião. Ele me deu um soco, minha boca inchou e meus braços estavam todos roxos. O escrivão que me atendeu frequentava bares com o meu marido. Pediu provas e disse, é a sua palavra contra a dele. Mostrei as marcas no corpo e ele respondeu, “e se foi outra pessoa que fez isso?”

Na terceira vez que apanhei, tinha acabado de sair de uma histerectomia, por causa de um câncer, tinha uma cicatriz enorme, de ponta a ponta na bacia.

No sábado em que chorei e pedi forças para me separar, o filho do meio dele apareceu na empresa e disse que não sabia como eu tinha aguentado tanto tempo. Eu desconfio que ele sabia algo que o pai tinha medo que fosse revelado. Eu acho que meu ex-marido concordou com a separação porque vivia aquela vida dupla, não queria que eu revelasse quem era. Eu assinei um contrato de solução de união estável cedendo a empresa, carros, muito dos nossos bens. Queria acabar com aquilo e ele me disse, se não assinar, eu vou dar cabo dos seus filhos. Ele era maçom, tinha amigos na polícia e na política da cidade. Os maçons não fizeram nada por mim, quando contei a eles. Fiquei no sítio, mas era isolado e logo começaram as tentativas de assalto e arrombamento. Eu estava desempregada e uma rara amiga que me apoiou conseguiu uma casa pequena para eu alugar, mais perto do centro da cidade. Eu moro lá até hoje. Vivo do aluguel de um galpão, faço doces para fora, vendo artesanato.

Hoje, eu olho para aqueles anos e pergunto: quem era aquela mulher? Por que eu fiquei? Eu era apaixonada por ele. Sei que as pessoas não entendem. Mas eram seis filhos, só consegui me libertar quando eles cresceram. Minha maior decepção foi descobrir que, enquanto eu escondia a violência da minha família, que não morava na cidade, muitos casais amigos sabiam. Só sobraram dois amigos daquele tempo.

E é preciso educar os meninos desde cedo, sempre conversei com meus filhos sobre como tratar as mulheres. O meu ex-marido foi espancado na infância. A gente imagina que quem foi vítima não vai ser agressor, mas parece que não é assim.

Sabe o que eu vou fazer, agora que estou para completar 61 anos? Exame para a OAB!

Depois da separação, eu vendi meu carro e consegui cursar Direito na Candido Mendes. Peguei meu diploma no ano passado. Eu quero fazer direito de família e proteger outras mulheres do que eu passei. Através da faculdade, fiz um estágio na delegacia local e atendi casos de violência. A violência contra a mulher é complexa. Eu vi mulheres simularem espancamento para destruir a vida de um homem. Precisamos ser atentos para não buscar justiça com injustiça.

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima.