Mueller, a esfinge que Trump não consegue devorar
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Mueller, a esfinge que Trump não consegue devorar

Lúcia Guimarães

03 Fevereiro 2018 | 22h07

Como o passado militar e o 11 de setembro prepararam o procurador especial da investigação sobre a Rússia para enfrentar as pressões de Trump.

Robert Mueller (Jonathan Ernst/Reuters)

A decisão da Casa Branca de liberar a publicação do polêmico memorando acusando o FBI de viés político contra os republicanos, reascendeu a especulação sobre uma iminente demissão do procurador especial Robert Mueller, que já obteve quatro indiciamentos de ex-assessores de da campanha de Donald Trump. Quem conhece o discreto ex-promotor de 74 anos, acha que ele, não só conta com esta possibilidade desde que começou a trabalhar, em maio passado, como continua a trabalhar alheio ao tumulto em Washington.

Na manhã do dia 11 de setembro de 2001, o novo diretor do FBI, com apenas uma semana no cargo, entrou na sala de reuniões para receber o primeiro briefing sobre uma organização terrorista fundada por um saudita que tinha instalado sua sede no Afeganistão. O diretor Robert Mueller não teve tempo de absorver qualquer informação: o primeiro avião comandado pela Al Qaeda de Osama Bin Laden atingiu uma das Torres Gêmeas em Manhattan às 8:46.


Mueller chegara ao cargo precedido pela reputação de ter montado a primeira unidade de combate ao crime cibernético no Departamento de Justiça e vinha tentar recuperar o caquético sistema de computadores do FBI. Ele não tinha experiência em combate ao terrorismo. O 11 de setembro mudou a missão de Mueller, que passou a ser responsável pela reengenharia da agência, até então predominantemente uma polícia federal encarregada de crimes dentro do país. Os anos seguintes foram dedicados a transformar a organização numa agência doméstica e global de inteligência e combate ao terrorismo.

Os tuítes presidenciais e a máquina de propaganda de ultra direita na mídia americana podem ofuscar a reputação de Robert Swan Muller III (pronuncia-se “Mâ-lar”) ao longo de 50 anos de carreira, a maior parte deles no serviço público. O FBI não teve outro diretor com melhor reputação de integridade e sobriedade apartidária, uma conquista mais notável quando se leva em conta a turbulência dos anos de George W. Bush, quando o equilíbrio entre a luta contra o terrorismo e o respeito à Constituição foi severamente testado. Mueller foi o mais longevo diretor do FBI depois do temido J. Edgar Hoover, que ficou quase meio século à frente da organização.

Quando o republicano Mueller encerrou o mandato regular de 10 anos, o presidente Barack Obama pediu a ele que continuasse no cargo por mais dois anos e o Senado aprovou a extensão por 100 votos a 0. Em 2013, Mueller, com seu amigo e ex-protegido James Comey nomeado sucessor, foi trabalhar num grande escritório de advocacia em Washington. Lá ficou até maio passado, quando Trump demitiu Comey, depois de pressiona-lo a não investigar seu ex-assessor de segurança nacional Michael Flynn. A demissão impulsiva de Comey levou o Departamento de Justiça, o único ministério que deve agir com independência da Casa Branca, a nomear um procurador especial e Muller foi convocado para investigar a interferência russa na eleição presidencial de 2016.

Um detalhe nem sempre mencionado da carta de nomeação de Mueller, escrita pelo subsecretário de Justiça Rod Rosenstein, seu único superior, é a autorização para que o procurador especial investigue, além da possível interferência russa, “quaisquer questões que possam emergir” da investigação original.

O indiciamento, em outubro passado, do ex-diretor da campanha Trump Paul Manafort, por exemplo, se concentrou em crimes financeiros, como lavagem de dinheiro. Mais do que a suspeita de conluio da campanha com os russos, algo que é tecnicamente complexo para ser provado e dificilmente resultaria em acusação criminal contra o presidente, é o escopo da vasta investigação em curso. É o que parece inspirar as séries de tuítes agressivos que muitas vezes acordam a Casa Branca antes de o sol nascer em Washington. E o risco de Mueller, à frente de uma equipe de 17 promotores, azes com experiência em investigar políticos corruptos, crimes de colarinho branco, crimes cibernéticos e terrorismo, revistar o terreno minado que é o passado de Donald Trump como empresário tira o sono do presidente.

Mas Robert Mueller não vai contar aos americanos o que descobruiu, ao final da investigação. A responsabilidade é de seu chefe, Rosenstein, que assumiu a autoridade porque o secretário de Justiça Jeff Sessions teve que se desincompatibilizar do caso Rússia por ter participado da campanha de Trump. Por mais que o desejo de demitir Mueller tenha sido expressado pelo presidente e vazado repetidamente, a demissão de Rod Rosentein seria mais próxima ao cenário que muitos consideram uma crise constitucional. Seria um gesto radical à altura do famoso Massacre de Sábado à Noite, quando Richard Nixon, sob investigação durante o escândalo de Watergate, demitiu o promotor especial Archibald Cox.

Após a divulgação do memorando, na sexta-feira, vários comentaristas notaram que, entre as pessoas citadas diretamente no texto, todas já foram defenestradas pelo presidente, só Rod Rosenstein continua no cargo.

A dúvida sobre as chances de Robert Mueller concluir o que começou e estabelecer se a Rússia teve sucesso na maior ação de espionagem e infiltração estrangeira desde o fim da Guerra Fria preocupa até aliados ocasionais do atual presidente. O time do procurador especial não vaza informações e ninguém em Washington pode se dizer informado sobre o que ele sabe. Mueller sempre foi avesso a entrevistas, mas abriu uma exceção, na década passada, para um repórter na capital. Ele é Garrett Graff, frequentemente consultado por interessados em especular sobre como o passado de Mueller pode nos informar sobre o destino da investigação. Graff é autor do livro A Matriz de Ameaça, o FBI em Guerra na Idade do Terror Global, uma história da gestão Mueller no pós-11 de setembro, lançado em 2011.

O jornalista narra no livro como Mueller, ao se formar pela Universidade de Princeton, se alistou para servir no Vietnã, onde foi ferido no comando de um pelotão de fuzileiros navais e mais tarde foi condecorado por heroísmo com a Medalha de Bronze. Era o começo década de 1960, a guerra ainda não tinha aberto o racha político e cultural no país que se viu a partir de 1967. Graff ouviu de Mueller, que tinha crescido em conforto e frequentado escolas particulares, que a morte de um colega de Princeton em combate foi o sinal para ele de que era preciso se alistar voluntariamente. O tema da importância do serviço público marcou a carreira de Mueller, que, mais de uma vez, abandonou a iniciativa privada e serviu sob todos os cinco presidentes antes de Trump, de Reagan a Obama.

A independência política sofreu o maior teste num episódio que poderia ter saído de um romance de suspense. Em março de 2004, com Mueller à frente do FBI e James Comey, seu frequente interlocutor, no cargo de subsecretário de Justiça, houve uma desavença entre a Casa Branca e Comey sobre a re-autorização de um programa secreto de escuta eletrônica e garimpagem de dados, Stellar Wind, usado para espionar potenciais terroristas depois do 11 de setembro. O então secretário de Justiça John Ashcroft teve que se internar para operar a bexiga e Comey assumiu como interino. Examinou o programa, detectou abusos e concluiu que era inconstitucional. O então vice-presidente Dick Cheney, notório linha dura, tentou intimidar o secretário interino.

Uma noite, quando voltava do trabalho com seus seguranças, Comey recebeu um telefonema da mulher de Ashcroft no quarto do hospital, avisando que o chefe de gabinete e o conselheiro jurídico de George W. Bush estavam a caminho para obter do titular da pasta a assinatura para continuar o Stellar Wind. Comey ligou primeiro para Robert Mueller em casa, mandou ligar a sirene do carro e correu para o hospital. Mueller deu ordem aos agentes do FBI postados na ala onde Ashcroft estava internado para que impedissem agentes do Serviço Secreto acompanhando os enviados da Casa Branca de retirar Comey à força. Ashcroft estava sedado, relata Garrett Graff, levantou a cabeça e disse aos visitantes, “Meus pensamentos não contam, eu não sou o secretário de justiça, ele é” e apontou para Comey. Mueller chegou ao hospital em seguida e disse ao exausto Ashcroft: “Chega um momento na vida de todo homem em que ele é testado e hoje você passou no teste.”

Na semana seguinte, Mueller e Comey prepararam cartas de demissão e foram fazer um briefing para Bush na Casa Branca. Comey pediu um momento a sós com o presidente, explicou de novo a oposição ao programa de espionagem nos moldes em que era executado e concluiu avisando que Robert Mueller ia se demitir pelo mesmos motivos. Bush voltou atrás, consciente de que a renúncia de um diretor do FBI com a reputação de Mueller seria um considerável estrago político para seu governo.

Desde a divulgação, na sexta-feira, do relatório polêmico e vastamente criticado por ex-membros do FBI e da comunidade de inteligência como um esforço renegado de assassinato político com informações incompletas e seletivas, a especulação comum em Washington é, se o relatório não tem valor jurídico, ele existe principalmente para agitar a base trumpista e apressar a demissão de Mueller? Ou a de Rod Rosenstein? Ou a de ambos?

O fato é que a investigação do FBI sobre a interferência russa começou meses antes da nomeação do procurador especial, como comprovam os indiciamentos do ex-assessor de campanha George Papadopoulos e do general Michael Flynn. Ela não vai suprimida com um gesto político. Para uma investigação federal ser fechada, especialmente uma que já acumulou a quantidade de documentos requeridos por Mueller, há um processo em estágios que envolve promotores. Ainda que ninguém, fora o bem vedado círculo de assessores de Robert Mueller, saiba o que ele sabe, o público americano, mais cedo ou mais tarde, há de saber.

Garrett Graff (cortesia do autor)

O autor Garrett Graff suspeita que o inescrutável Robert Mueller, mesmo quando voltar a ser um cidadão privado, continuará calado. A não ser, é claro, que as eleições legislativas de novembro devolvam a maioria na Câmara ou no Senado aos democratas. Neste caso, se Mueller tiver sido forçado a deixar o governo sem concluir seu trabalho, podemos contar com um convite para ele depor sob juramento.

Já que Bob Mueller não gosta de aparecer, dar entrevista ou falar em público, aqui vai um trecho de um raro discurso que fez há dez anos, no centenário do FBI:

“Não basta deter o terrorista – devemos detê-lo enquanto mantemos suas liberdades civis.

Não basta capturar o criminoso – devemos captura-lo enquanto respeitamos seus direitos civis.

O domínio da lei, as liberdades civis e os direitos civis – eles não são nosso fardo. São o que nos tornam melhores.”