Citando racismo, bibliotecária de Cambridge rejeita coleção de livros infantis doada por Melania
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Citando racismo, bibliotecária de Cambridge rejeita coleção de livros infantis doada por Melania

Segundo bibliotecária, as ilustrações de Dr. Seuss estão 'mergulhadas em propaganda racista, caricaturas e estereótipos prejudiciais'

Redação Internacional

29 Setembro 2017 | 17h03

Um dos autores infantis favoritos da primeira-dama americana, Melania Trump, é Dr. Seuss, que ela diz ter lido “várias e várias vezes” para seu filho Barron. O autor, um clássico da literatura infantil americana, foi a escolha de Melania para presentear uma escola elementar em Cambridge, Massachusetts, em celebração do Dia Nacional de Leitura de Livro.

Mas a bibliotecária da Escola Cambridgeport se recusou a aceitar o presente, criticando as políticas de educação da administração Trump e as imagens dos livros de Dr. Seuss. As ilustrações do autor estão “mergulhadas em propaganda racista, caricaturas e estereótipos prejudiciais”, escreveu Liz Phipps Soeiro em uma carta direcionada a Melania na terça-feira.

Segundo Liz, em vez de enviar livros para uma escola bem estabelecida em Cambridge, ela deveria dedicar os recursos a escolas de “comunidades desprivilegiadas e sem recursos” que são “marginalizadas e afetadas pelas políticas aplicadas pela atual secretária de Educação, Betsy DeVos”. Críticos veem a atual secretária, uma bilionária que tem trabalhado por décadas promovendo alternativas às tradicionais escolas públicas, como a secretária mais contrária à educação pública da história do departamento.


Doar a coleção com dez títulos de Dr. Seuss foi um “esforço dela (Melania) para promover sua plataforma de ajudar o máximo de crianças que ela puder”, afirmou a porta-voz da Casa Branca Stephanie Grisham.

O Departamento de Educação escolhe uma escola de alto desempenho em cada Estado para receber uma coleção de livros de Melania, de acordo com um comunicado da Casa Branca. “Transformar o gesto de doar livros escolares infantis em algo divisionista é um ato infeliz, mas a primeira-dama continua comprometida em seus esforços pelos interesses das crianças em todos os lugares”, escreveu Stephanie.

O sistema educacional em Cambridge divulgou um comunicado dizendo que a bibliotecária “não estava autorizada a aceitar ou rejeitar doações de livros em benefício da escola ou do distrito”, de acordo com a TV CBS Boston.

A bibliotecária Liz argumentou que a literatura recente aponta um potencial racismo no trabalho de Dr. Seuss, cujo verdadeiro nome é Theodor Seuss Geisel. Ela cita o especialista em literatura infantil Philip Nel que argumenta que a representação de Dr. Seuss em seu livro O Gatola da Cartola se baseia em estereótipos racistas e é inspirado por em uma antiga tradição, considerada ofensiva, em que artistas brancos pintavam seus rostos de preto para interpretar personagens negros em comédias e musicais.

Liz se referiu ainda ao escritor como um “clichê” e um “cansado embaixador da literatura infantil” em sua carta, postada no Horn Book, uma publicação sobre literatura infantil e adulta.

Muitos leitores no site do Horn Book apoiaram o posicionamento da bibliotecária, mas outros sugeriram que ela foi “dura” e “mal-agradecida” por não aceitar o presente de Melania. “Que tal ensinar a nossas crianças a serem agradecidas, aceitar o presente e dizer ‘muito obrigada’?”, escreveu um leitor.

Do lado de fora da escola, os pais elogiaram a atitude de Liz. “Acho que a carta é realmente articulada e construtiva em suas sugestões”, diz Alez Vanpraagh.

Dr. Seuss é há muito tempo uma referência da literatura infantil nos EUA. O dia de leitura estabelecido pela Associação Nacional de Educação (NEA, na sigla em inglês), em 2 de março, é a data de nascimento de Seuss. Nessa dia, cidades em todo o país mantêm eventos ligados à literatura.

Capa do livro Gatola da Cartola

Segundo o porta-voz do NEA, Steven Grant, houve uma estratégia ao escolher o autor como símbolo, uma vez que a imagem de O Gatola da Cartola já chamava imediatamente a atenção das crianças.

O autor tem também muitos admiradores, incluindo o ex-presidente Barack Obama, que afirmou “ainda ser um grande fã de Dr. Seuss”, em 2015, ao visitar uma biblioteca em Washington. Ele exaltou o autor como um dos mais “reverenciados mestres americanos das palavras”.

Na cidade natal do escritor, Springfield, em Massachusetts, o prefeito, Domenic Sarno, não gostou da reação da bibliotecária por chamar um filho ilustre da cidade de “racista” e “clichê”. Segundo ele, os comentários foram “o pior do politicamente correto”.

O prefeito afirmou que se a escola de Cambridge não quiser a coleção de livros, “Springfield quer”. Ao dar as declarações à imprensa local, o prefeito aproveitou para convidar Melania e o presidente Donald Trump para visitar o museu da cidade dedicado ao autor. / COM WASHINGTON POST