Família de sargento morto no Níger diz que Trump foi ‘desrespeitoso’
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Família de sargento morto no Níger diz que Trump foi ‘desrespeitoso’

Trump, envolto a uma nova controvérsia sobre o modo como os presidentes americanos demonstram compaixão com as famílias de soldados mortos em combate, negou que tenha dito algo inapropriado

Redação Internacional

18 Outubro 2017 | 17h16

WASHINGTON – A mãe de um sargento do Exército americano morto no Níger disse nesta quarta-feira, 18, que o presidente Donald Trump, na sua ligação para oferecer condolências, foi ‘desrespeitoso’ à família, no momento em que ela se dirigia para o aeroporto para receber o corpo do militar.

Trump, envolto a uma nova controvérsia sobre o modo como os presidentes americanos demonstram compaixão com as famílias de soldados mortos em combate, negou que tenha dito algo inapropriado. O sargento La David Johnson era um dos quatro militares americanos mortos há cerca de duas semanas, cujas famílias disseram não ter recebido nenhuma palavra do presidente.

Myeshia Johnson chora sobre o caixão do mario, o sargento La David Johnson, morto no Níger. Foto: WPLG/AP

A deputada democrata Frederica Wilson (Flórida) afirmou que Trump disse à viúva Myeshia Johnson que o marido dela sabia ao que estava se expondo”. A deputada estava no carro com a viúva a caminho do Aeroporto Internacional de Miami para encontrar o corpo do marido quando Trump ligou.


A mãe do sargento, Cowanda Jones-Johnson, afirmou à agência Associated Press que as declarações da deputada estavam corretas. “Foi verdadeiro. Eu estava no carro e eu ouvi toda a conversa”, afirmou Cowanda.

Trump negou ter feito tal afirmação. No Twitter, ele declarou: “A deputada democrata fabricou totalmente o que eu  disse para a mulher do soldado que morreu em ação (e eu tenho provas). Triste!”

Em uma reunião na Casa Branca sobre revisão fiscal, o presidente voltou a negar a afirmação. “(Eu) não disse o que a deputada falou, não disse de jeito nenhum. Ela sabe disso.”

Frederica não recuou em sua posição, sugerindo que Trump “nunca quer assumir” um erro. “Se você é o líder do mundo livre, se você é o presidente dos Estados Unidos e quer demonstrar simpatia a uma família em luto, a uma víuva em sofrimento, você escolhe as palavras cuidadosamente”, disse a deputada à AP.

“E todo mundo sabe que Donald Trump não escolhe suas palavras cuidadosamente”, disse. “Ela (Myeshia) estava chorando o tempo todo. E a pior parte foi quando ele encerrou a ligação e ela se virou para mim e disse: ‘ele nem lembrava o nome dele (Johnson)'”.

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Como presidentes anteriores, Trump tem feito contato pessoal com algumas famílias de soldados mortos em combate, mas não todos. A diferença é que Trump, o único entre eles, escolheu travar uma luta política sobre quem está se saindo melhor em honrar os mortos em guerra e suas famílias.

Ele afirma estar desepenhando essa função melhor que todos, como afirmou na terça-feira: “Acho que eu liguei para cada família que teve alguém morto na guerra”, afirmando que os presidentes anteriores a ele não fizeram isso.

No entanto, a AP encontrou parentes de quatro soldados que morreram durante a presidência de Trump que disseram nunca ter recebido qualquer ligação do republicano. De dois deles, nem sequer uma carta do governo. E há provas ambundantes de que Barack Obama e George W. Bush – dois presidentes com muito mais mortes do que as duas dezenas
de Trump até agora – se esforçaram para escrever, ligar ou se encontrar com as famílias dos militares, segundo a agência.

Após seu filho morrer em um acidente com um veículo blindado na Síria em maio, Sheila Murphy disse não ter recebido qualquer ligação ou carta de Trump, após ela esperar por meses por suas condolências e escrever para ele dizendo que “havia dias que eu não queria viver”.

Em contraste, Trump ligou para confortar Eddie e Aldene Lee há cerca de dez dias após seu filho, um soldado do Exército, ter sido morto em uma explosão durante patrulha no Iraque, em abril. “Um amável jovem homem”, Trump disse, de acordo com Aldene, que achou “bonito” ouvir do presidente a palavra “amável”.

Nesta quarta-feira, o site Politico divulgou reportagem segundo a qual uma equipe do Conselho Nacional de Segurança elaborou um comunicado oficial de condolências para Trump fazer quase que imediatamente após a morte dos soldados no Níger. Mas ele foi ignorado e nunca emitido pelo presidente. Segundo o Politico, não estava claro porque ele nunca foi divulgado e o Conselho não quis comentar.

O atraso de Trump para discutir publicamente as perdas no Níger não é algo extraordinário, considerando que ele já fez isso antes, mas sua politização do tema é.

Na terça-feira, ele chegou a mencionar a morte do filho de seu chefe de gabinete, John Kelly, no Afeganistão, dizendo que Obama não agiu apropriadamente para honrar a morte de um combatente. Kelly era um general da Marinha na administração de Obama quando seu filho, Robert, morreu em 2010. “Você pode perguntar ao general Kelly, ele recebeu uma ligação de Obama?”, disse Trump à rádio Fox News.

Uma fonte da Casa Branca afirmou mais tarde que Obama não ligou para Kelly, mas não respondeu se algum outro tipo de manifestação foi emitida. Kelly, presente na reunião do presidente ontem na Casa Branca, sentado ao lado dele, não conversou com repórteres.

Democratas e alguns ex-integrantes do governo se disseram “chocados”, acusando Trump de “crueldade inata” e de fazer um “jogo doentio” com o tema.

A senadora democrata Tammy Duckworth (Illinois), uma veterana da Guerra do Iraque que perdeu as duas pernas quando o helicóptero em que estava foi atacado, se pronunciou: “Eu apenas desejo que esse comandante-chefe pare de usar as famílias Gold Star como garantia de seja lá qual for o jogo doentio que ele está tentando fazer aqui”.

Por sua parte, famílias Gold Star, assim denominadas aquelas que perderam um parente na guerra, afirmaram à AP ter se sentido confortadas e consoladas quando Bush e Obama eram os comandantes-chefes.

Trump, inicialmente, afirmou que apenas ele entre todos os presidentes fizeram questão de ligar para as famílias. Obama “talvez” tenha ligado em alguma ocasião, mas “outros presidentes nunca fizeram isso”.

O presidente se atrapalhou uma vez que os registros deixaram claro que sua afirmação era falsa. “Eu não sei”, disse ele sobre ligações passadas.

Não existe um protocolo na Casa Branca que obriga o presidente a ligar ou encontrar com famílias de americanos mortos em ação, uma tarefa quase impossível em tempos de guerras sangrentas. Mas eles o fazem com frequência.

Cerca de 6,9 mil americanos foram mortos em combates no estrangeiro desde os ataques de 11 de Setembro de 2001, a maioria sob a administração Bush e Obama. “Ainda que o maior número tenha ocorrido sob seu governo – mais de 800 mortes por ano de 2004 a 2007 -, Bush escreveu para todas as famílias de militares mortos e encontrou ou falou com centenas, se não milhares deles”, afirmou seu porta-voz, Freddy Ford.

Grupos de veteranos disseram que a eles não interessa a discussão sobre como os presidentes reconhecem ou confortam suas famílias. “Não acho que tenha havido algum presidente que não tenha ligado para essas famílias”, disse Rick Weidman, co-fundador e diretor executivo do Vietnam Veterans of America.

Os pais do soldado Humayun Khan, durante a Convenção Democrata. Foto: Alex Wong/AFP

Durante sua campanha eleitoral, Trump teve uma polêmcia com uma família Gold Star, ao se desentender publicamente com os pais do capitão do Exército Humayun Khan, que morreu no Iraque em 2004, por eles tê-lo criticado no palco da Convenção Nacional Democrata. / AP