Professor do Kansas usa colete à prova de balas em protesto contra lei que libera armas na sala de aula
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Professor do Kansas usa colete à prova de balas em protesto contra lei que libera armas na sala de aula

Redação Internacional

06 Setembro 2017 | 15h43

WASHINGTON – No início do ano acadêmico, Kevin Willmott causou impacto em seus alunos no Estado do Kansas: chegou vestindo um colete à prova de balas para protestar contra a nova norma que permite assistir as aulas armado.

“Achei que colocar esse colete os faria se sentir tão incomodados como eu estou diante da possibilidade de que eles portem armas”, diz esSe professor americano de Cinema, de 59 anos. “Quando cheguei no primeiro dia, o silêncio tomou conta da turma. Estavam muito surpresos.”

O professor de Cinema Kevin Willmott já colaborou com Spike Lee no filme Chiraq. Foto: Savanna Smith/University Daily Kansan / AFP

“Disse a eles: tentem esquecer que estou usando um colete à prova de balas e eu tentarei não lembrar que, talvez, um de vocês esteja portando uma Magnum calibre 44″, prosseguiu.


Passaram-se duas semanas desde que Willmott surgiu na sua turma com o colete, equipamento próprio de um policial ou militar.”É pesado, é uma carga, mas decidi usá-lo durante um ano como forma de protesto”, assegurou.

Assim como outros professores da Universidade do Kansas, Kevin teve de explicar a seus alunos as novas regras vigentes no câmpus, em conformidade com uma lei aprovada em 2013 pelo Estado, mas implementada no início do verão (no Hemisfério Norte).

Os alunos e membros da universidade agora têm o direito de portar uma arma, embora deva estar escondida debaixo de uma roupa, em uma bolsa, mochila, ou no porta-luvas do carro.

Uma medida “estúpida”, afirmou Kevin, que se apressou em acrescentar um parágrafo às recomendações: permitiu que seus alunos usassem, assim como ele, um colete à prova de balas se assim desejarem.

A justificativa para permitir armas nos campi universitários se baseia na polêmica ideia de que é a melhor forma de lutar contra os tiroteios que regularmente atingem as instituições americanas.

Esse debate, que não ocorre em nenhum outro lugar do mundo, provocou respostas radicalmente diferentes nos Estados do país.

Cerca de 15 deles alegaram que as universidades são “santuários” onde não se pode tolerar armas de fogo. Outros 20 permitiram que as instituições de ensino superior decidam o que fazer caso a caso.

Por fim, 10 Estados permitiram armas nos campi: Arkansas, Colorado, Idaho, Kansas, Mississippi, Oregon, Tennessee, Texas, Utah e Wisconsin.

No país de empresas como Colt e Smith&Wesson, o poderoso lobby de armas de fogo National Rifle Association informou que “a única maneira de deter alguém ruim com uma arma é uma pessoa boa com outra arma” – palavras sagradas para milhões de pessoas.

Kevin Willmott acaba com esse argumento com uma referência histórica: a tentativa de assassinato de Ronald Reagan em 1981.

“O presidente Reagan estava rodeado pelos melhores homens armados no mundo, os do Serviço Secreto”, recordou. “Eram provavelmente as pessoas mais bem treinadas do mundo para proteger um presidente e, no entanto, uma pessoa inexperiente o alcançou com uma arma, disparou e quase o matou”.

Reagan foi ferido em 30 de março de 1981 por John Hinckley, que não foi considerado culpado por motivos psicológicos e passou mais de 30 anos em uma instituição psiquiátrica.

O professor, que também é diretor de cinema, conhece bem o tema da violência por armas de fogo: colaborou com Spike Lee no filme Chiraq, sobre a guerra entre facções dos distritos meridionais de Chicago.

Willmott também gosta de abordar as questões raciais e acredita que a possível presença de armas nas turmas possa impedir o debate livre sobre alguns temas.

“As pessoas terão medo de evocar temas sensíveis como questões raciais, de identidade ou de orientação sexual. Haverá uma autocensura diante da ideia de que alguém na turma possa estar armado. É o contrário à liberdade de expressão. É o contrário ao objetivo para o qual foi criada a universidade”, advertiu. / AFP

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