“Agro-imperialismo”?
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“Agro-imperialismo”?

Robson Morelli

30 Novembro 2009 | 10h00

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Agricultor trabalha em fazenda em Kwale, Quênia. Foto: Joseph Okanga/Reuters

O botânico Americano Robert Zeigler foi até a Arábia Saudita em março deste ano para uma realizar uma série de discussões sobre o futuro da produção de alimentos do reino. Autoridades sauditas estavam preocupadas com a demanda crescente das importações, já que o preço dos produtos, como o arroz e o trigo, oscilaram violentamente nos mercados nos últimos três anos. O país, rico em petróleo e pobre em terras cultiváveis, procura  por uma estratégia para garantir alimento para a população. Existem basicamente duas soluções possíveis: inventar meios de multiplicar os já existentes ou encontrar novos locais para agricultura – como a África.

Segundo o jornal americano The New York Times, Zeigler é responsável pelo Instituto Internacional de Pesquisa do Arroz, que trabalha para aprimorar as sementes. Durante a Revolução Verde, que multiplicou a produção de arroz na década de 1960, a organização desenvolveu o “arroz milagroso”. Ao chegar no reino, o botânico descobriu que o país não queria encontrar meios de aumentar a sua produção, mas investir bilhões em plantações em países africanos como Mali, Senegal, Sudão e Etiópia. A África, o continente mais faminto do planeta, não é capaz nem de produzir alimento para sua população, mas sim para investidores estrangeiros.

Uma série de fatores – alguns transitórios como a variação no aumento dos preços de produtos alimentícios, e outros como o crescimento da população mundial e a escassez de água – criaram um grande mercado de terras para cultivo, recurso valioso para nações no Oriente Médio, Ásia e outras regiões do mundo em que a agricultura é barata e abundante. Como quase 90% das terras cultiváveis do mundo já está em uso, se não considerarmos florestas e ecossistemas frágeis, a única área disponível para desenvolver a produção de alimentos seria a África.

Investidores estrangeiros – alguns representando governos, outros da iniciativa  privada – prometem levar infraestrutura para esses países, além de novas tecnologias, criar empregos e produzir não apenas para outros países, mas também para o consumo dos próprios africanos. Eles descobriram que governos mais pobres são obviamente os mais receptivos, oferecendo terras praticamente de graça. Um exemplo é o acordo entre o Quênia e o Catar, que permitiu o uso de 100 mil acres de terras africanas em troca do financiamento de um novo porto. Porém, muitos outros acordos foram fechados sem fazer tanto barulho.

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