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ENTREVISTA: ‘Casamento infantil não é tradição, cultura nem religião, é abuso’

Estadão Esportes

10 Setembro 2011 | 17h58

Por Talita Eredia, de O Estado de S. Paulo

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Britânica e filha de indianos, a ativista Jasvinder Sanguera usou a própria experiência e do suicídio da irmã para fundar a Karma Nirvana, uma organização com o objetivo de romper o silêncio e apoiar meninos e meninas obrigados a abandonar os estudos e se casar. Para ela, que fugiu de casa aos 15 anos, “casamentos infantis forçados não são tradição, cultura ou religião. Isso é abuso. Ninguém tem o direito de forçar uma criança a se casar por tradição.” Abaixo, trechos da entrevista que Jasvinder deu ao Estado, por telefone.

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Estado – Como foi sua decisão de enfrentar sua família e sair de casa?
Jasvinder Sanguera – Vi duas das minhas irmãs serem retiradas da escola e enviadas para a Índia para casar – uma delas ainda vive lá. A outra cometeu suicídio aos 24 anos. Quando chegou a minha vez, minha mãe me mostrou a foto de um homem e disse “esse é o seu futuro marido”. Eu queria estudar, ter uma profissão. Diziam que eu não precisava de educação, porque eu seria uma boa mulher. Abandonei a escola e fui trancada em casa até que concordasse com o casamento.

Tive duas opções: casar com um estranho ou ser considerada morta pela família. Aos 15 anos, fugi de casa com a ajuda de amigos. Meus pais deixam claro que eu os desonrei. Ainda sinto falta da minha família. Eles não queriam ver que eu era a vítima. Fugir era o único meio de mostrar para a minha família o que eu sentia.

Estado – E como você viveu depois?
Jasvinder Sanguera – O irmão mais velho de uma amiga me ajudou a fugir. Ele tinha um carro, onde morei por umas semanas. Me lavava em banheiros públicos, dormia em bancos de praças. Ele tinha algum dinheiro, então consegui alugar um quarto. Era um lugar horrível. Minha família era simples, mas tínhamos a própria casa, e eu vivia com sete irmãs. A partir daquele momento, eu estava sozinha.

Estado – Como você soube da morte da sua irmã?
Jasvinder Sanguera – Quanto eu tinha 22 anos, um conhecido da minha família foi até a loja em que eu trabalhava e disse que uma tragédia havia acontecido com a minha irmã. Liguei para casa e minha mãe contou que ela havia cometido suicídio. Ela ateou fogo no próprio corpo e morreu dias depois, em consequência dos ferimentos. Fui proibida de velar a minha própria irmã. Fiquei horrorizada. Pensei que ao perder uma filha, infeliz com a vida que haviam escolhido para ela, os meus pais ficariam sensibilizados e me aceitariam. Isso não aconteceu. Eles consideram que eu os traí, os envergonhei

Estado – Por que você decidiu fundar a Karma Nirvana?
Jasvinder Sanguera – Quando descobri a morte da minha irmã, percebi que meus pais jamais me aceitariam de volta. Decidi voltar para a região em que a minha família vive, em Derby, com um projeto – em nome da minha irmã – para ajudar outras vítimas do casamento infantil forçado. Aos 27 anos, decidi voltar a estudar, consegui me formar na universidade e hoje sou doutora honorária.

Estado – Como é o trabalho da ONG?
Jasvinder Sanguera – Pela minha experiência, sei que os jovens são proibidos de falar sobre o casamento forçado – contar qualquer coisa íntima para alguém fora da família é considerado uma desonra. Desde 2007, temos uma linha telefônica que oferece apoio emocional e profissional qualificado. Recebemos cerca de 400 chamadas por mês – de adolescentes e mulheres casadas. A linha é essencial para romper o isolamento das vítimas. Se a pessoa quiser, falamos com professores e buscamos ajuda. Jamais falamos com a família. Entendemos que esse é um caso em que o perpetrador do abuso está em casa.

Estado – Você recebe ameaças?
Jasvinder Sanguera – O tempo todo, principalmente nos últimos oito anos. São cartas, telefonemas, bilhetes no para-brisa do meu carro, e-mails, até objetos lançados contra as janelas do escritório. Em 2007, recebi um telefonema afirmando que tinha uma bomba no meu carro. Segundo a polícia, um homem acreditava que eu tinha incentivado a filha dele a fugir. A polícia me ensinou a identificar bombas no carro e tornou-se parte da minha rotina procurar explosivos para garantir minha segurança. Em casa, tenho um quarto do pânico e um cachorro treinado para garantir a segurança da minha família. Frequentemente troco o número do meu telefone. E a maior parte das ameaças vem da minha própria comunidade.

Estado – Hoje, aos 46 anos, você se casou?
Jasvinder Sanguera – Sou divorciada, tenho três filhos e sou muito feliz. Com 15 anos, não tinha ideia de que aquela decisão influenciaria não só o meu futuro, mas principalmente o dos meus filhos. São três crianças independentes, que estudam, com o direito de escolha, liberdade de pensamento e jamais estarão sujeitos ao abuso de um casamento forçado na adolescência.