Diário do Haiti: Bolacha de barro ajuda na economia haitiana
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Diário do Haiti: Bolacha de barro ajuda na economia haitiana

Iguaria se tornou símbolo da miséria do Haiti, mas ainda garante renda de muitos haitianos

Redação Internacional

02 Setembro 2017 | 05h00

Luciana Garbin, enviada especial / Porto Príncipe

 


Você põe argila na bandeja e mistura, mistura, mistura. Depois junta sal e manteiga. E pode pôr tempero também. Quando estiver uma massa bem ligada, vai pondo no chão e modelando. Depois é só deixar secar no sol.

Essa é a receita da bolacha de barro, segundo Yvoise Natan, de 35 anos, uma das vendedoras da iguaria que se tornou um dos símbolos da miséria do Haiti. Usado por parte da população para matar a fome quando a Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah) começou, em 2004, o biscoito parece ter ganhado algumas utilidades ao longo desses 13 anos.

Yvoise paga escola dos cinco filhos e compra coisas para casa com a venda das bolachas de barro. Foto: HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

As vendedoras contam que ele também ajuda o feto a se desenvolver dentro da barriga da mãe e a aumentar o leite de quem acabou de ter filho. Muitas grávidas comem pelo menos um por dia. Também tem funções estéticas: se dissolvido em água, serve para dar força à raiz dos cabelos e deixar a pele mais macia.

No Mercado Venezuela, uma imensa área em Porto Príncipe que ganhou o apelido de “cozinha do inferno”, a bolacha é chamada de “argile”. Com 10 gourdes, ou US$ 0,16, é possível comprar quatro bolachas inteiras. As quebradas custam menos. Yvoise diz que consegue tirar 1.000 gourdes por dia no negócio e com as bolachas paga a escola dos cinco filhos, compra coisas de casa e se veste.

O tradutor Jerry Anteys, que acompanhou o Estado no passeio ao mercado, conta que haitianos comem o biscoito quando estão com fome ou para tirar o gosto que fica na boca depois do almoço. A argila que suja os dentes serve para limpar o hálito. Pergunto se não pode fazer mal para uma criança, por exemplo, e ele diz que não, porque crianças ali costumam comer coisas muito piores encontradas no lixo.

O Mercado Venezuela impressiona pelo tamanho, o esgoto e a quantidade de gente. Completamente caótico, tem calcinhas ao lado de verduras, gente lavando cenouras com o pé, compradores pisando em chuchus e repolhos, vendedores fazendo linguiças sem nenhuma higiene, gente pedindo qualquer coisa a quem passa, vendedores com todo tipo de coisa na cabeça, de alho a sacos plásticos, tomates, quiabos e cebolas expostos ao lado de lixo e porcos. Algumas partes são protegidas por pedaços de tecido ou plástico furados, outras têm cobertura de madeira, boa parte fica debaixo do sol, incluindo pedaços de carne de peixe e frango.

Contêineres de ajuda humanitária viraram abrigo para frutas e tubérculos e, em meio ao mau cheiro que domina boa parte do espaço, haitianos brincam quando veem estrangeiros passar. É raro algum por ali. “O que eles estão fazendo aqui, hein?”, pergunta uma haitiana sorrindo. “Pede para eles ajudarem a tirar o lixo do rio”, diz outra. “Vieram mostrar a miséria do Haiti, é? Vão fazer dinheiro com minha foto e não vão dividir nada”, reclama uma terceira. Já na saída, um vendedor de mochila pega um megafone e diz em crioulo: “E aí, imbecis? Vão deixar mesmo eles ficarem tirando retrato?”