Diário do Haiti: Padrinhos brasileiros ajudam haitianos
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Diário do Haiti: Padrinhos brasileiros ajudam haitianos

Família de Lovely, que nasceu no dia do tremor de 2010, teve casa reconstruída com dinheiro de ‘vaquinha’

Redação Internacional

03 Setembro 2017 | 05h00

Luciana Garbin, enviada especial / Porto Príncipe

 


Lovely Eugéne nasceu em meio aos escombros do terremoto que destruiu Porto Príncipe em 12 de janeiro de 2010 e matou cerca de 300 mil pessoas. Sua mãe deu à luz minutos depois de o tremor de 7,3 graus na escala Richter destruir a casa da família.

Aos 31 anos, Jocely Eugéne conta que começou a sentir dores após o desespero causado pelo terremoto. Sem poder procurar um hospital, recebeu ajuda apenas de uma vizinha, que cortou o cordão umbilical, e do marido, que arrumou um pouco de água para tentar limpar o sangue do parto.

Família Eugéne na casa construída com doações obtidas por servidora aposentada de Brasília. Foto: HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

“Pedi forças para Deus e tive o bebê ali mesmo”, lembra, segurando no colo outra bebê, de 3 meses. Além dela e de Lovely, Jocely tem mais dez filhos. Três deles são alunos de uma escola mantida pelas Irmãs Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, brasileiras que desde 2011 atuam no Haiti e oferecem hoje capoeira, dança, futebol, desenho e outras atividades a 200 crianças de 3 a 12 anos. Foi lá que o Estado descobriu a história da pequena haitiana conhecida como “a menina que nasceu no terremoto”.

Com várias trancinhas e presilhas brancas no cabelo, Lovely fala pouco e muito baixinho. Só abre um sorriso quando a irmã Maria Zelinda Cardim, responsável pela instituição de caridade, a chama para entrar no carro e ir com a reportagem até sua casa, construída com dinheiro vindo do Brasil.

Apoio. Há poucos anos, a história de Lovely sensibilizou uma madrinha que participa de um projeto de apadrinhamento. Com ajuda de amigos, a servidora aposentada de Brasília Ana Lins arrecadou US$ 15 mil e enviou ao Haiti. O dinheiro se transformou numa construção de alvenaria com dois cômodos e banheiro na região de Santo, nos arredores de Porto Príncipe, onde a família vive. “Antes, a família ocupava um barraquinho muito ruim, que alagava a cada vez que chovia”, conta a irmã Maria Zelinda.

Ana ficou sabendo de um projeto de adoção à distância no Haiti por meio de um programa de missionários brasileiros que trabalhavam em um colégio com 200 crianças no país.

Ao perceber que as crianças tinham dificuldade de aprendizado em razão da fome, esse grupo de religiosos entrou em contato com sua congregação no Brasil para obter ajuda humanitária com apoio logístico do Exército.Segundo Ana, só no ano passado foram arrecadadas 70 toneladas de alimentos.

“O Haiti não tem recurso nenhum, né? Então, muitas pessoas adotaram as crianças. Eu fui uma delas”, disse ao Estado. “Vou continuar ajudando enquanto precisar.”

Ao chegar à casa de Lovely, encontramos Joel Eugéne, de 55 anos, pai de Lovely, usando uma camiseta amarela com o nome do Brasil escrito em verde nas costas. Ele conta que vive de pequenos serviços que consegue de vez em quando e faz questão de mostrar os três cômodos da casa, com destaque para o banheiro, que tem vaso sanitário, mas não tem ligação de esgoto.
Na saída, grava um vídeo para a madrinha brasileira. Nele, agradece e diz que reza todo dia para que ela seja feliz e receba muitas graças.

Durante a visita, Lovely não solta a mão da irmã Maria Zelinda. Calada, dá outro sorriso quando entra pela segunda vez no carro da religiosa para voltar à escola. Questionada sobre o que sonha em fazer quando crescer, diz, de novo baixinho: “Doutora.” / COLABOROU LUIZ RAATZ