França e Inglaterra travam novo duelo pelo anel de Joana d’Arc
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França e Inglaterra travam novo duelo pelo anel de Joana d’Arc

Anel que teria sido usado pela 'donzela de Orleans' simboliza a resistência à invasão inglesa; joia foi vendida em março por mais de € 376 mil e comprador a retirou da Inglaterra

Redação Internacional

14 Abril 2016 | 11h17

O duelo é judicial por enquanto, mas pelo tom das declarações, França e Inglaterra parecem dispostos a reviver um novo capítulo da Guerra dos Cem Anos que conflitou os países entre os séculos 14 e 15 e agora ressurge pela disputa da propriedade do anel de uma de suas heroínas, Joana d’Arc.

Comprada em fevereiro por um francês e importada à França, a relíquia agora é reivindicada pelas autoridades britânicas, que a consideram “parte integral do patrimônio inglês” e consideram que nunca deveria ter saído do país.


A opinião é diferente no outro lado do canal da Mancha, onde o ex-presidente do departamento de Vendée, Philippe de Villiers, que adquiriu o anel, garante que não permitirá que a joia volte a deixar o território francês.

Anel que teria pertencido a Joana d'Arc coloca mais uma vez franceses e ingleses em lados opostos de disputa

Anel que teria pertencido a Joana d’Arc coloca mais uma vez franceses e ingleses em lados opostos de disputa

Esse anel é o único objeto atribuído à “donzela de Orleans”, símbolo da resistência à invasão inglesa e ícone da independência da França. No horizonte já se vislumbra um enfrentamento que, desta vez, terá como campos de batalha os tribunais. Tudo isso por um anel cuja autenticidade não é comprovada.

Sabe-se que na Idade Média as mulheres não usavam medalhas e em seu processo, ao ser acusada de feitiçaria, Joana d’Arc disse usar um anel com três crucifixos e a inscrição “Jesus Maria”.

O acusador do caso, o bispo Cauchon, usou essa joia como argumento para provar que Joana curava pessoas graças ao anel, o que serviu para condená-la à morte por bruxaria. Após a execução, o anel foi entregue ao cardeal inglês Henry Beaufort, que o transferiu a terras inglesas, de onde nunca saiu, até março deste ano.

Propriedade de um colecionador privado, a relíquia foi adquirida em fevereiro em um leilão pelo parque de Puy du Fou, localizado em Vendée, fundado por De Villiers e dedicado à história da França. Segundo o jornal “Le Figaro”, o parque pagou € 376.833 pelo objeto.

A aquisição representou uma vitória para Philippe de Villiers, político identificado com a extrema direita e feroz defensor da soberania. “O anel está na França e na França ficará”, disse durante a apresentação da joia no parque, como se já imaginasse o contra-ataque britânico, que não demorou para acontecer.

Atores em fantasias da época medieval encenam cerimônia no parque histórico Puy du Fou, em Les Epesses, na França

Atores em fantasias da época medieval encenam cerimônia no parque histórico Puy du Fou, em Les Epesses, na França

O Conselho Nacional de Artes da Inglaterra afirma que o anel nunca deveria ter abandonado o território britânico e que seu comprador não tinha autorização para tirá-lo dali.

Por esse motivo, a entidade se dirigiu às autoridades francesas para exigir a devolução de uma joia que, segundo o lado inglês, constitui “uma peça importante da história da Inglaterra, um objeto de grande valor simbólico”.

Foi só um pedido por enquanto, mas ambas as partes já avisaram que estão dispostas a chegar mais longe pelo objeto. Repercute em Londres a informação que De Villiers pode ser condenado a até seis anos de prisão e a uma multa de € 1 milhão por tirar um objeto histórico do Reino Unido sem permissão.

“Não vamos dar Joana d’Arc uma segunda vez aos ingleses”, declarou o político à rádio “RTL”, ao lembrar que foram os próprios franceses que entregaram a resistente aos carrascos ingleses, que a queimaram em Rouen em 1431.

Imagem do anel quando ele foi leiloado, em março

Imagem do anel quando ele foi leiloado, em março

Guardado em um lugar secreto que nem sequer as autoridades francesas conhecem, o anel aguarda seu destino alheio às lutas que despertou.

Caso seja necessário, De Villiers ainda tem uma carta na manga: apelar à rainha Elizabeth II. Segundo ele, sua antecessora, a rainha Vitória, queria devolver a joia à França. / EFE

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