Lados opostos na fronteira da Bulgária: solidários e ‘caçadores de refugiados’
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Lados opostos na fronteira da Bulgária: solidários e ‘caçadores de refugiados’

Imigrantes que chegam ao território búlgaro encontram pessoas dispostas a ajudá-los, mas também lidam com a presença de patrulhas civis que visam ‘caçá-los’

Redação Internacional

05 Abril 2016 | 09h07

BELEVREN, BULGÁRIA – Os poucos refugiados que chegam à Europa cruzando a fronteira entre a Turquia e a Bulgária podem ter a sorte de serem recebidos por moradores solidários dispostos a ajudá-los ou notarem a presença de patrulhas civis que têm se dedicado a caçar os imigrantes.

Nas imediações de Belevren, uma aldeia entre florestas e colinas de difícil acesso onde só vivem oito pessoas, se aventuram grupos de entre 5 e 15 refugiados do Oriente Médio.

Alguns tiveram o azar de cruzar com Dink Valev, um praticante de artes marciais de 29 anos, que foi notícia na imprensa búlgara por ter detido e amarrado 16 sírios em março de 2015. Conhecido agora como “caçador de refugiados”, ele defende seu direito de proteger a Bulgária contra o que considera “lixo”.


“Não gosto de ter esse apelido porque estou no meu próprio país. Fui atacado e é normal atuar em defesa própria como eu fiz. Também quero defender minha pátria”, disse Valev em entrevista na garagem de sua casa que fica na cidade de Yambol, a cerca de 60 km da fronteira.

Valev afirmou que encontrou um grupo de imigrantes, entre eles três mulheres e uma criança, e, após escapar da agressão de um deles, pediu da forma “mais educada possível” que ficassem quietos até a chegada dos policiais.

“É um direito civil defender e proteger minha pátria de intrusos como esses sírios, iraquianos, paquistaneses e outros lixos”, declarou o “caçador de imigrantes”.

O Comitê Búlgaro de Helsinque, uma ONG de defesa dos direitos humanos, avalia a atitude de Valev de outra forma e o denunciou à Justiça por atacar e humilhar os refugiados sem motivos. O homem foi interrogado pela polícia, mas não foi preso.

De acordo com a ONG, Valev não esconde sua vontade de organizar patrulhas civis para deter os imigrantes que buscam asilo. A ideia que está ganhando cada vez mais adeptos.

“Valev semeia o medo entre os refugiados e incita a sociedade búlgara ao repúdio e à hostilidade contra as pessoas que buscam amparo”, disse um dos porta-vozes da organização.

Mas nem todos os búlgaros apoiam a “caça aos imigrantes”. “Sempre os ajudamos como podemos. Não temos medos deles, nem os odiamos. Somos os primeiros para os quais eles veem ao atravessar a fronteira da Bulgária e tentamos fazer com que recebam um tratamento humano”, contou Petar Mitev, um morador da aldeia de Belevren.

“Ficamos com pena em razão do estado deplorável no qual chegam. A maioria escapa da guerra e não há nada mais terrível do que uma guerra”, lamentou Mitev, que cria gado na região e fornece água, comida e roupas aos imigrantes antes da chegada da polícia.

“Não posso ficar indiferente, particularmente em relação às mulheres e crianças que vagam pela floresta sentindo frio e fome”, completou Mitev. De acordo com ele, conforme avança a construção da cerca que o governo turco está erguendo na fronteira com a Turquia, diminui o número de refugiados que chegam ao país, especialmente vindos de Síria, Iraque e Afeganistão.

A Bulgária teme que o fechamento da chamada rota dos Bálcãs, imposto principalmente por Áustria e Eslovênia, provoque um desvio da onda de imigrantes rumo ao país. Por isso, o governo está acelerando a construção do muro, que terá uma extensão de 160 km, cinco vezes maior do que o planejado em 2013. /EFE

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