Odebrecht derruba primeiro presidente na América Latina
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Odebrecht derruba primeiro presidente na América Latina

Até a renúncia de Pedro Pablo Kuczynski, no Peru, o político de mais alto atingido pelo escândalo no exercício da função era o ex-vice-presidente do Equador Jorge Glas, que perdeu o cargo em janeiro e foi condenado a 6 anos de prisão

Redação Internacional

22 Março 2018 | 10h58

LIMA – O devastador escândalo de corrupção em torno da Odebrecht, umas das gigantes brasileiras da construção, continua cortando cabeças de líder latino-americanos: no Peru, Pedro Pablo Kuczynski se tornou o primeiro presidente a cair por este caso.

A renúncia de PPK

Kuczynski se tornou na quarta-feira o primeiro presidente em exercício a renunciar por seus vínculos com a Odebrecht, empresa que admitiu ter pago quase US$ 5 milhões para consultoras relacionadas com o chefe de Estado quando ele era ministro, entre 2004 e 2013.

Em Lima, peruanos acompanham o discurso em que PPK renunciou à presidência (REUTERS/Guadalupe Pardo)

Em Lima, peruanos acompanham o discurso em que PPK renunciou à presidência (REUTERS/Guadalupe Pardo)

“Disseram que as coisas mudariam, mas sou pessimista sobre América Latina (…) Vemos que são hábitos praticados praticamente por toda a classe política latino-americana. É preciso mudar a política, as regras de financiamento dos partidos políticos para que isto não volte a ocorrer”, opinou Gaspard Estrada, diretor do Observatório Político de América Latina e Caribe (Opalc) da Universidade de Ciências Políticas de Paris.

O escândalo da Odebrecht, “que tem o efeito de paralisar projetos estruturais que impactam a economia” de todo o continente, segundo Raúl Ferro, assessor acadêmico do Centro para Abertura e Desenvolvimento da América Latina (Cadal), atinge também vários ex-presidentes e políticos peruanos.

Procuradores peruanos pedem à Justiça que proíba Kuczynski de deixar o país

A empreiteira brasileira disse que repassou dinheiro para todas as campanhas eleitorais no Peru entre 2006 e 2011. O ex-presidente Ollanta Humala está preso há mais de oito meses e o país deve apresentar em breve um pedido aos EUA para que o também ex-presidente Alejandro Toledo seja extraditado por sua suposta implicação no caso.

Vice-presidente destituído no Equador

A Procuradoria solicitou a pena máxima e a Suprema Corte acompanhou o pedido: em meados de dezembro, o vice-presidente equatoriano Jorge Glas foi condenado a seis anos de prisão por ter recebido US$ 13,5 milhões em suborno da Odebrecht.

Vice-presidente desde 2013 e em prisão preventiva desde outubro, Glas é o líder político em exercício de mais alto escalão a ter sido condenado por esse caso na América Latina.

Sua sentença “marca uma ruptura com o encobrimento da corrupção que houve durante o governo de Rafael Correa (2007-2017)”, comentou recentemente o cientista político Simón Pachano, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) de Quito. Glas foi afastado de suas funções em janeiro.

Brasil, o berço do escândalo

No Brasil, o número de baixas é maior. Como as investigações revelaram até agora, a Odebrecht tinha um departamento chamado “Setor de Operações Estruturadas”, que foi rapidamente rebatizado pela Polícia Federal como “Departamento de Propinas”.

+ Para lembrar: Presidentes latino-americanos destituídos ou forçados a renunciar

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) é acusado de envolvimento nesse caso. A Justiça investiga possíveis doações feitas ao presidente (um triplex, um sítio, terrenos) por parte da construtora.

Condenado a 12 anos e um mês de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro, Lula será informado na segunda-feira do veredicto sobre sua última apelação, no Tribunal de Segunda Instância de Porto Alegre (TRF4).

Os próximos dias e semanas podem dar lugar a vários cenários, que vão desde sua detenção até uma eleição presidencial em 2018, para a qual é o grande favorito, apesar de sua condenação.

“A possível queda do presidente peruano provavelmente será usada nas eleições brasileiras para criticar os governos do PT”, disse o analista político Maurício Santoro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

O diretor-executivo do grupo, Marcelo Odebrecht, foi sentenciado a passar 19 anos atrás das grades. No final de 2017, deixou a prisão para cumprir detenção domiciliar como recompensa por sua colaboração com a Justiça.

Suas declarações permitiram investigar oito ministros do gabinete do presidente Michel Temer, um terço do Senado e mais de 40 deputados federais.

Outros líderes atingidos

O escândalo também afetou a Venezuela, onde o grupo brasileiro disse ter pagado US$ 98 milhões. O presidente Nicolás Maduro é suspeito, mas a Justiça, acusada pela oposição de servir aos interesses do chefe de Estado, rejeitou qualquer pedido de investigação.

No Panamá, dois filhos e três ex-ministros do ex-presidente Ricardo Martinelli (2009-2014) foram acusados. / AFP