Análise: Os tropeços  do populismo
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Análise: Os tropeços do populismo

O crescente populismo, impedido de avançar pelos canais normais, se torna autoritário e ditatorial

Redação Internacional

02 Fevereiro 2017 | 05h00

Ross Douthat
The New York Times

O populismo pode variar, mas sua gênese em geral é a mesma. Determinado conjunto de ideias tem o apoio da sociedade, mas não consegue quem o compre nos debates políticos da elite. Então, o fracasso da elite e a pressão popular se combinam fazendo com que essa tensão amadureça e possa ser explorada, o que permitirá o surgimento de novas figuras ou movimentos no cenário político.

Donald Trump é obviamente essa figura, e o congelamento das admissões dos refugiados nos EUA é uma das ideias. A proposta de impedir temporariamente o ingresso de todos os muçulmanos, apresentada por Trump nas primárias do Partido Republicano, recebeu escasso apoio. Mas quando ele defendeu a aplicação de restrições de acordo com cada país, seu posicionamento populista tornou-se mais sólido.

NEW YORK, NY - FEBRUARY 01: New York City Police Officers Aml Elsokary (left) and Maritza Morales wear American Flag head scarfs at an event at City Hall for World Hijab Day on February 1, 2017 in New York City. The day was started five years ago when a Muslim in New York invited other women to experience what it is like to wear a hijab every day in America. The day is now celebrated in cities around the world. Spencer Platt/Getty Images/AFP == FOR NEWSPAPERS, INTERNET, TELCOS & TELEVISION USE ONLY ==

Manifestantes usam a bandeira americana como véu em Nova York durante evento pelo Dia Internacional do Hijab. (Foto: Spencer Platt/AFP)

Isso não ocorre porque a ideia básica é infinitamente inaceitável. Eu me oponho à medida porque acho que os EUA têm obrigação moral de ajudar os cidadãos no Iraque e na Síria. Ao mesmo tempo, todas as medidas relativas aos refugiados têm limitações – a maioria deles precisa de ajuda muito mais perto de casa e o teto anual da ordem de Trump – 50 mil – ainda é próxima do número de pessoas admitidas nos governos de Obama e Bush.

Nada disso pretende minimizar a crueldade da limitação da entrada de refugiados. Mas a política externa é conhecida pelas escolhas cruéis. Portanto, por que o frenesi do fim de semana? Por uma série de aspectos inerentes ao populismo.

Em primeiro lugar, o populismo manifesta-se na pressão exercida contra as fronteiras da opinião aceitável. Mas, ao longo desse processo, ele frequentemente adota a intolerância e o extremismo, que por sua vez influem na recepção de suas políticas. Nesse caso, foram as investidas originais de Trump com a “proibição dos muçulmanos” que determinaram a recepção do congelamento.

Em segundo lugar, depois de fazer campanha contra as elites, os populistas imaginam que podem superar todos os obstáculos, que o procedimento metodológico e a sabedoria institucional são coisas para fracassados. Esse pressuposto é profundamente equivocado, por razões que se tornaram evidentes no fim de semana, como a insensata tentativa de aplicar a proibição aos cidadãos com residência permanente.

Então, finalmente, como o populismo prospera por sua disposição a quebrar regras, tende a tratar esse caos e esse contragolpe como uma espécie de justificativa, como um sinal de que está no caminho certo, entrando num círculo vicioso.

Enquanto isso, a ascensão do populismo também cria uma inusitada solidariedade entre as elites. Trump, em menos de duas semanas, enfrenta resistência da comunidade da inteligência, do Departamento de Justiça, do Departamento de Estado e outras área da burocracia, enquanto a mídia se une contra ele numa escala nunca vista até mesmo em governos republicanos anteriores.

O temor dos que têm medo de Trump é que ele trate a oposição da elite esmagando-a num expurgo do Estado, domando a mídia, reformulando o Judiciário e derrotando ou cooptando democratas. É esse o cenário no qual um crescente populismo, impedido de avançar pelos canais normais, se torna autoritário e ditatorial.

Não há nada no populismo de Trump hoje que permita sugerir a existência de habilidade política ou de uma popularidade imprescindível para esmagar a oposição. Nesse caso, em lugar de Putin, o exemplo mais relevante seria o do ex-presidente do Egito, Mohamed Morsi, o líder da Irmandade Muçulmana cujo breve mandato foi definido pela autossabotagem crônica e pela ativa resistência da burocracia e da intelligentsia egípcias que tornaram a governança efetivamente impossível.

A sabotagem do Estado egípcio de Morsi culminou num golpe. Não é o que prevejo para a era Trump. Mas o que pudemos observar a respeito da política adotada em relação aos refugiados indica que é muito mais provável que esse governo seja definido pelo caos e pela incompetência do que qualquer outra força implacável. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É JORNALISTA