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Para entender: Como ficam os clubes de futebol espanhóis em caso de independência da Catalunha

Sobre a questão, o Barcelona está dividido entre o que diz a legislação espanhola e a necessidade econômica de continuar competindo em alto nível

Redação Internacional

11 Outubro 2017 | 13h07

MADRI – Com a declaração de independência da Catalunha – ainda que de forma inesperada -, o futuro dos clubes da região nas Ligas espanholas está em xeque. O Barcelona, mais poderoso dos times catalães, se divide entre o que diz a legislação espanhola e a necessidade econômica de continuar competindo em alto nível.

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Entenda melhor a questão abaixo.

Quais os clubes afetados?


A Catalunha, referência do esporte na Espanha, conta com três clubes de futebol na primeira divisão: FC Barcelona, Espanyol e Girona. Além destes, três competem na segunda divisão: Barcelona B, Gimnástic de Tarragona e Reus. E ainda há várias equipes na terceira categoria. O Barcelona é o mais conhecido, com dimensão global. A equipe foi uma das fundadoras da Liga espanhola em 1928-1929, assim como o eterno rival Real Madrid.

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O que diz a legislação?

A Lei de Esporte espanhol especifica que nenhum clube de Estados estrangeiros pode jogar em torneios do país, com exceção de Andorra. O Artigo 32 estabelece que, para que os clubes possam participar de “atividades ou competições esportivas oficiais de âmbito estatal ou internacional”, deverão “se integrar às federações esportivas espanholas correspondentes”. O artigo indica ainda que se a Federação Catalã de Futebol (FCF) abandonar o teto da federação espanhola, os clubes catalães teriam de deixar a Liga. Apesar disso, ainda não se sabe se a lei espanhola sofrerá alguma alteração.

A expulsão do Barcelona seria automática?

O Barcelona e os clubes catalães de futebol não seriam expulsos imediatamente. Segundo Alberto Palomar, doutor em direito e especialista em legislação esportiva, a lei catalã de transitoriedade – que deve valer em caso de confirmação da independência – prevê manter a legislação espanhola compatível com a nova ordem até a proclamação de uma nova Constituição catalã.

Isso afetaria a Lei de Esporte espanhola, que se for vista do lado estatal também pode seguir sendo aplicada, já que o Tribunal Constitucional suspendeu a lei de transitoriedade. Por isso, a efetividade não é reconhecida. Sendo assim, “enquanto as federações catalãs estiverem integradas (às suas respectivas espanholas), os times poderiam jogar e os atletas poderiam representar a Espanha”, explicou o professor da Universidade Carlos III de Madri.

O presidente da Liga espanhola, Javier Tebas, se mostrou partidário de uma linha mais dura. Recentemente, ele anunciou que em caso de declaração de independência pedirá aos clubes catalães para “darem suas opiniões sobre o que está acontecendo”. “Acho que não vai haver uma ruptura imediata”, acrescentou Tebas, que deu a entender que a Liga atual poderia continuar até o final.

O Barcelona pode jogar em outro país?

Muitos citam o exemplo do Monaco, que joga a Liga francesa, para ver o Barcelona disputando outro campeonato que não seja o espanhol. Mas segundo Palomar, um eventual reconhecimento da Fifa demoraria para chegar, como aconteceu com Gibraltar e Kosovo. Sem isso, a federação catalã não poderia fazer acordos com outra federação nacional, como fizeram Monaco (França) e Andorra (Espanha).

Por outro lado, no nível esportivo surgiria o problema sobre qual divisão o Barcelona deveria entrar: diretamente na elite ou respeitando as regras de promoção e rebaixamento. Restaria a opção de um campeonato catalão desvalorizado, que teria de ser reconhecido pela Uefa para poder participar da Liga dos Campeões. Questionadas pela agência France-Presse, Fifa e Uefa não fizeram comentários a respeito.

Qual impacto econômico teria a saída do Barcelona?

Em 2015, Tebas afirmou que o clássico Real Madrid x Barcelona era “a joia da Liga”. Sem o jogo mais visto do mundo, com cerca de 650 milhões de espectadores, o valor dos direitos televisivos espanhóis – atualmente € 1,6 bilhão por ano – reduziria muito. José María Gay de Liébana, professor de Economia da Universidade de Barcelona, avalia que a saída do Barcelona custaria “pelo menos € 200 milhões” aos direitos de televisão.

Para o Barcelona, ficar sem as receitas de televisão espanhola – cerca de € 700 milhões em 2016-2017 – seria terrível. “Seria dar um passo atrás, mortal”, destacou o economista, que garantiu que as estrelas do clube deixariam a equipe. O Barça “não poderia contar com figuras de nível internacional e passaria a ser um clube mediano”, concluiu.

O que o Barcelona pode fazer?

Posicionado a favor do “direito de decidir” da Catalunha, o Barcelona ainda não quer se pronunciar sobre a “hipotética” independência. O clube afirmou que está na Liga espanhola e “tem intenção de jogar, de disputar e de tentar ganhar a Liga”.

“Se o Barça tivesse que jogar em uma Liga, ou decidir o que é preciso fazer depois da hipotética Catalunha independente, a lógica seria consultar os sócios que são os proprietários” do Barça, declarou uma fonte do clube. Ainda assim, a fonte garantiu que o time não está preocupado, já que “qualquer Liga do mundo, da Europa, ou mesmo a espanhola, desejaria ter um clube como o Barça disputando”. / AFP

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