Perdão, dignidade, sacrifício e rejeição: as escalas do papa na Colômbia
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Perdão, dignidade, sacrifício e rejeição: as escalas do papa na Colômbia

As quatro fases da viagem do papa Francisco à Colômbia

Redação Internacional

06 Setembro 2017 | 18h15

BOGOTÁ – De quatro pontos da Colômbia, o papa Francisco vai falar ao mundo e, em especial, ao continente americano, sobre perdão e reconciliação no pós-guerra, serviço sacerdotal, dignidade e direitos humanos.

Reconciliação


A 70 km de Bogotá, na cidade de Villavicencio, Francisco vai liderar o ato mais relevante durante sua viagem de cinco dias.

Afetada pela violência da guerrilha e paramilitar, a região receberá uma missa e um encontro de oração para reconciliar um país que, por meio século, sofreu com um violento conflito armado. O evento contará com as presenças de vítimas e de algozes arrependidos.

Moradoras de Villavicencio tiram foto ao lado de cartaz do papa Francisco (EFE/LEONARDO MUÑOZ)

Moradoras de Villavicencio tiram foto ao lado de cartaz do papa Francisco (EFE/LEONARDO MUÑOZ)

Ana Clemencia Rodríguez considera a visita um bálsamo para a dor provocada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Em novembro, a agora ex-guerrilha assinou um histórico acordo de paz.

Obrigada pelos rebeldes a se mudar duas vezes, depois de denunciar o recrutamento de menores de idade nos municípios de Puerto Lleras e Acacías, próximos a Villavicencio, a guerra deixou outra marca em Ana: em 2001, foi estuprada em retaliação por suas acusações.

“Se eu tivesse ficado calada e não denunciasse, nada teria acontecido comigo, mas a obrigação do ser humano é proteger uns aos outros”, disse ela.

O confronto entre guerrilhas, paramilitares e forças do Estado deixou 7,5 milhões de vítimas, entre mortos, desaparecidos e deslocados.

Cheiro de ovelha

Antes de Francisco pedir sacerdotes com “cheiro de ovelha”, em contato com as periferias como ele fazia em sua juventude, o padre Juan Carlos Velásquez já se via mais nas ruas do que nos templos de Medellín.

Cabelo longo, barriga de 40 anos e a linguagem das ruas, Velásquez concentra seu trabalho pastoral nos “combos”: gangues juvenis que disputam os bairros daquela que já foi a capital mundial do narcotráfico.

Velásquez oferece aos jovens uma “alternativa de vida”. “Me identifiquei com o discurso do homem, há mais de 16 anos o que tenho feito é me untar de pessoas”, afirma.

Francisco é o homem ao qual faz referência esse padre “ouvido no submundo de Medellín”, como afirma a imprensa colombiana.

Nas ruas, Velásquez conheceu “Orejas”, um jovem de 23 anos, com esposa e dois filhos, que ajudava a mudar de vida. Em 2013, ele foi morto por ultrapassar a “fronteira” imposta por outro combo.

A dor e a frustração se alternam com a esperança provocada pela presença de 47 universitários em sua paróquia. “Há cinco anos, eram apenas três”, recorda.

Dignidade

Houve uma época em que Lorenza Pérez não tinha como alimentar os três filhos e se via obrigada a dividir entre eles um refresco e um pão no jantar. Ela morava em uma área invadida que era praticamente o lixão para onde se enviavam os dejetos dos mercados de Cartagena.

Daquele período, ela se lembra das moscas e do trabalho – lavando roupas, ou vendendo frutas – para que a família mudasse de vida.

Cinquenta anos depois, Lorenza trabalha em um salão comunitário de refeições que recebe ajuda da Igreja católica, destinado especialmente a crianças e grávidas. “Quem pode colabora com 300 pesos (10 centavos de dólar)”, disse.

Lorenza é uma líder em San Francisco, único bairro pobre que será visitado pelo pontífice. Apesar da situação melhor que há meio século, a área ainda sofre com gangues, tráfico de drogas e registras muitos casos de gravidez precoce.

A mulher, que fala das “necessidades de minha comunidade”, escuta diariamente o barulho dos aviões no aeroporto internacional de Cartagena, principal destino turístico do Caribe colombiano. Aos 77 anos, nunca embarcou em um voo e acredita que Francisco gosta dos pobres.

‘Non grata’

Os ônibus do sistema de transporte de Bogotá exibem uma mensagem de boas-vindas a Francisco, mas nem todos recebem-no com aplausos.

Na cidade em que Francisco discursará para os jovens, grupos católicos ortodoxos consideram sua visita como “non grata”.

Esses setores consideram o pontífice o líder de uma corrente reformista dentro da Igreja que, alegam, contradiz os evangelhos e a autoridade de Jesus Cristo. Por isto, chamam-no de marxista, maçom e até de falso profeta.

“É um populista da fé, quer dar aula para todo mundo”, afirma o professor e ex-candidato a presidente José Galat, de 89 anos, que faz duras críticas em um canal de televisão a quem se refere apenas como Jorge Mario Bergoglio.

Embora sejam minoria, os “ultra” têm influência política e midiática, enquanto aumenta o peso das igrejas protestantes que defendem uma agenda conservadora. / AFP

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