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Quem combate na Síria e contra quem

Redação Internacional

15 março 2016 | 06:00

A Síria sofre uma guerra na qual vários conflitos se interligam e são registradas múltiplas ingerências estrangeiras, com uma crescente escalada entre dois de seus principais protagonistas, Rússia e Turquia

 

ALIADOS DO REGIME SÍRIO

Rússia e Irã apoiam desde o início do conflito, em 2011, o governo do presidente sírio Bashar Assad e intervêm no campo militar de forma decisiva. Mas seus objetivos não são os mesmos.

Para a Rússia, a Síria é seu último ponto de influência na região, e seu apoio ao regime de Assad é uma maneira de se afirmar perante os Estados Unidos. Desde setembro de 2015, a aviação russa bombardeia “alvos terroristas”, como Damasco e Moscou se referem à oposição armada ao regime. Poucos destes bombardeios são dirigidos contra o grupo Estado Islâmico (EI).

Graças a estes bombardeios, a Rússia “inverteu a situação”, segundo uma expressão de seu ministro das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, e permitiu ao regime de Assad reconquistar espaço ante os rebeldes e o EI.

Ao mesmo tempo, o regime lançou no dia 1º de fevereiro uma ofensiva na região rebelde de Alepo (norte), agora quase totalmente cercada pelas forças governamentais, que deixou 500 mortos, segundo uma ONG síria, e levou 50 mil pessoas a fugir à fronteira turca, que segue fechada.

O Irã enviou milhares de “conselheiros militares” à Síria, e apoia o regime de Assad por meio da milícia xiita libanesa Hezbollah e de milícias xiitas iraquianas. Isso permite que Teerã combata indiretamente seu inimigo sunita e grande rival da região, a Arábia Saudita.

APOIO À REBELIÃO

Diferentemente dos aliados do regime, a frente “anti-Assad” está desunida. A determinação russa surpreendeu os ocidentais, que defendem uma solução política ao conflito. E gerou uma reação violenta da Turquia e, em menor medida, da Arábia Saudita.

A Turquia vive um momento de tensão com a Rússia, depois de ter derrubado em novembro um avião militar russo, acusado por ela de violar seu espaço aéreo. A Turquia também é hostil ao regime de Assad, e apoia os rebeldes islamitas na Síria.

Mas Ancara está, sobretudo, obcecada com as forças curdas da Síria, ao considerá-las uma emanação do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), com o qual está em guerra em seu território. O governo turco teme principalmente a vocação independentista dos curdos, minoria presente não apenas na Turquia, mas também na Síria e no Iraque (onde tem uma autonomia).

Neste contexto, a ofensiva russa-síria no norte da vizinha Síria e o enfraquecimento da rebelião permitiram aos curdos retomar o controle de várias localidades. Algo inaceitável para Ancara, que teme que os curdos sírios estendam sua influência a sua zona fronteiriça.

A Turquia bombardeia com sua artilharia posições curdas no norte da Síria. Essa situação preocupa os ocidentais, aliados da Turquia na Otan, mas que também apoiam os curdos, considerados os mais eficazes na luta contra os jihadistas do EI.

A Arábia Saudita, com seu apoio a grupos rebeldes sírios, realiza na Síria uma guerra indireta contra o Irã. Riad forma parte da coalizão liderada pelos Estados Unidos contra o EI. Agora está disposta a se envolver mais na Síria e nesta semana mobilizou aviões de combate na base turca de Incirlik para “intensificar as operações aéreas contra o EI”.

Os Estados Unidos bombardeiam desde setembro de 2014 posições do EI no Iraque e na Síria. Mas o presidente Barack Obama, artífice da saída de seu país do Iraque, não quer enviar tropas terrestres à região. Além disso, os Estados Unidos estão em plena campanha para a eleição presidencial de novembro.

Vários aliados – entre eles a França – acusam Washington de não se envolver o suficiente no conflito e de “ambiguidades”, ao realizar muitas concessões à Rússia.

A França foi durante muito tempo um dos países mais hostis a Assad. Mas após os atentados de 2015, fez da luta contra o EI sua prioridade, e é membro da coalizão internacional contra este grupo.

Paris segue pedindo, no entanto, a saída de Assad do poder, e apoia a oposição síria constituída em dezembro em Riad, e integrada por políticos e representantes de grupos armados rebeldes. / AFP