Rapa Nui cobra independência do Chile, 120 anos depois
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Rapa Nui cobra independência do Chile, 120 anos depois

Marcelo de Moraes

19 Novembro 2009 | 15h30

Moradores de um dos destinos turísticos mais exóticos do mundo, a Ilha de Páscua, ou Rapa Nui – conhecida pelas milenares cabeças gigantes esculpidas em rocha vulcânica, os moais – querem frear a entrada de estrangeiros em seu território e ameaçam separar-se do Chile depois de 120 anos de anexação.

Há dois meses, mais de 80 polinésios que vivem na ilha tomaram o aeroporto de Mataveri e impediram por três dias todos os pousos e decolagens que ligam a ilha ao continente. Os manifestantes só desocuparam o local depois de receber a garantia do governo chileno de que negociariam diretamente com o subsecretário de Interior, Patricio Rosende.

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A principal reivindicação – considerada razoável pelas autoridades – é impedir que estrangeiros fixem residência na ilha. Mas o que preocupa Santiago é a extensão desta regra aos cidadãos chilenos que passariam a ter de pagar para visitar o local, seriam impedidos de morar na ilha e só poderiam trabalhar por lá se conseguissem um visto de duração máxima de um ano.

“Queremos que as pessoas venham, visitem e partam. Apenas isso”, disse ao Estado Mario Tuki, fundador do Parlamento Rapa Nui, que não é reconhecido como parte do Legislativo pelo governo chileno.

Tuki diz que os moradores lutam pela “instalação de um reinado independente” na ilha. Questionado sobre sua nacionalidade, responde: “sou rapa nui polinésico tanto quanto um brasileiro é brasileiro”.

O líder rapa nui descarta a possibilidade de uma revolução, diz que seu povo é pacífico, mas não dá sinais de que os nativos da ilha pensem em recuar das manifestações. “Até agora, o diálogo com o governo tem andando muito ruim, não avançou quase nada. Querem nos manter calados, apenas como um pedaço de terra estratégico para ampliar o mar territorial chileno”, disse.

Depois de uma longa queda de braço, os pascuenses – como são chamados os moradores da ilha – conseguiram  no dia 24 de outubro forçar a aprovação da medida de controle do turismo. Dos 1.300 eleitores da ilha, 96,3% aprovaram a proposta de restringir as visitas. Agora, o governo deverá enviar ao Congresso um projeto de lei que atenda à exigência dos pascuenses – apenas para estrangeiros.

RISCOS
A ideia de tratar os visitantes chilenos como estrangeiros abriria um precedente perigoso. Outras comunidades indígenas poderiam animar-se a fazer o mesmo, avalia o governo.

Um dos maiores problemas de segurança interna do Chile está na Região (Estado) de Temuco, onde indígenas mapuche querem a criação de um território autônomo. Eles atacam propriedades rurais, bloqueiam rodovias e enfrentam a polícia. A combinação das palavras “indígena” e “autonomia” tem, portanto, um potencial explosivo não só na remota Rapa Nui, mas também no restante do país.

‘LATINO-POLINÉSICO’
Os nativos da Ilha de Páscua não parecem chilenos; têm traços polinésicos, falam um idioma próprio e têm religião diferente de seus coterrâneos continentais. A ilha, na verdade, fica a quase 4 mil quilômetros da costa chilena, a meio caminho para a ilha de Papeete, na Polinésia Francesa. É um dos locais mais isolados do mundo.

Metade de seus quase 4 mil moradores são nativos. A outra metade é parte dos 60 mil visitantes todos os anos chegam para conhecer os moais e acabam ficando para morar. O Chile anexou a ilha em 1888.