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Uma cidade inteira está de mudança no norte gelado da Suécia

Patrícia Ferreira

15 Agosto 2011 | 19h43

Kiruna, na Suécia, fica 145 km ao norte do Círculo Polar ÁrticoKiruna, cidade com 22 mil habitantes no norte gelado da Suécia, está de mudança. A partir do final do ano que vem, de acordo com as autoridades locais, residências, prédios públicos e construções históricas da cidade, localizada 145 km ao norte do Círculo Polar Ártico, serão transferidos para uma localidade próxima. Os imóveis incluem a pequena casa construída no primeiro boom de mineração da cidade, por volta de 1900.

Veja também:
Dicas para quem quer visitar a cidade

VÍDEO: Assista à reportagem original do ‘WSJ’
IMAGENS: O hotel de gelo, principal atração de Kiruna

A razão: dependente da atividade de mineração e assentada sobre uma preciosa jazida de minério de ferro, a cidade precisa dar lugar para a expansão da exploração.

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Segundo a diretora municipal de planejamento urbano e meio ambiente de Kiruna, Ann Catrin Fredriksson, a decisão teve apoio dos moradores. “Sabemos que não havia muita escolha”, disse ela ao diário americano The Wall Street Journal, que relatou a história. “E esta é uma cidade mineira, então ninguém foi contra”.

Segundo o jornal, o plano de mudar Kiruna de lugar começou a tomar forma no boom econômico do começo da década passada e ganhou urgência nos últimos anos por conta da demanda chinesa por matéria-prima. A mineradora estatal sueca Luossavaara-Kiirunavaara AB (ou simplesmente LKAB) explora minério de ferro no local desde o século 19.

Executivos de mineração abordaram as autoridades locais seis anos atrás pedindo a mudança da cidade – algo que não é inédito a não ser pela escala no caso de Kiruna. Segundo o WSJ, não foi a primeira vez que uma mineradora pediu para derrubar alguns prédios. Fredriksson, diz o jornal, chegou a um acordo com a LKAB para que a empresa pagasse todos os custos da “mudança”.

A empresa gastou mais de US$ 460 milhões comprando terras e movendo, demolindo e construindo edifícios. Mais de dez prédios históricos serão transportados intactos, como prevê o acordo entre a prefeitura e a LKAB. Nos próximos 20 anos, cerca de 3 mil dos atuais 22 mil moradores terão de se mudar. “Mas a transformação de Kiruna vai continuar enquanto minerarmos, então, no fim, talvez todo mundo da cidade” tenha de se mudar, disse ao WSJ a porta-voz da LKAB, Johanna Fogman. “Isso pode demorar até cem anos”.

‘Lugar notável’

O WSJ afirma que Kiruna é um lugar notável. No inverno, a temperatura chega a 40 graus abaixo de zero. O lanche favorito na cidade é carne de rena defumada e enrolada em um pão parecido com pão sírio. A principal atração turística da cidade é o hotel de gelo de Jukkasjarvi, que derrete na primavera e precisa ser reconstruído no outono.

“Não é o melhor lugar para comprar um bom terno, mas se você busca uma furadeira capaz de operar a 90 metros de profundidade, está com sorte”, disse ao jornal Anders Holstenson, funcionário da LKAB e guia turístico das minas locais.

Renas

Enquanto a transferência de alguns edifícios históricos, a demolição de algumas casas e a construção de outras não começa (a previsão é final de 2012), a cidade tem enfrentado outros problemas. Quando trilhos localizados em terreno instável foram transferidos de um lado para o outro da mina, a população sueca de etnia sami, um povo indígena, expressou preocupação com as renas.

Os 15 mil lapões (ou samis) que moram na Suécia têm dezenas de milhares de renas. Na primavera, eles permitem que as renas, devidamente identificadas, passeiem pelas colinas. Quando volta a nevar, os animais retornam. Mas os novos trilhos ficam perto demais da trilha migratória das renas. A solução encontrada pela LKAB e pelo Ministério dos Transportes foi a construção de uma ponte (com grama e terra) para a passagem dos bichos. A ponte ficou pronta há cerca de um ano.

“As renas têm uma bússola interna e queríamos permitir que elas a seguissem sem ter de cruzar os trilhos do trem”, disse ao WSJ Lina Nasstrom, que trabalha para a Autoridade Estatal de Transportes. Mas o chão ficou congelado demais em outubro para as renas andarem nele. Então os pastores lapões precisaram buscá-las em picapes nas montanhas.


Veja abaixo o vídeo com a reportagem original (em inglês) do jornal ‘The Wall Street Journal’.

Kiruna: O que vale a visita

Voos. Se você está considerando visitar a cidade, antes de ela mudar de lugar, vale a pena saber que não há voos diretos do Brasil para Estocolmo, a capital da Suécia. A opção é voar com escala (até duas paradas) pelas principais companhias europeias, como Lufthansa, KLM, Swiss ou British. A TAM também tem voos para Estocolmo. A partir da capital, a viagem até Kiruna pode ser feita pela SAS (cerca de 200 euros) e leva 90 minutos. Outra opção é a viagem de trem, que leva 16 horas.

Mineração. A mina da LKAB é a maior e mais moderna mina de ferro subterrânea do mundo, fazendo dela uma atração também para turistas. Há passeios guiados às rotas subterrâneas localizadas 800 metros abaixo da superfície. Para saber mais, ligue no centro de informações turísticas de Gällivare: +46-970-16660.

Igreja. Um dos edifícios históricos de Kiruna, a igreja também vai ser movida. Uma dúvida fundamental tem sido, segundo a reportagem do WSJ, o destino do prédio, construído em 1912 e eleito em 2001 o mais popular da Suécia. As autoridades têm procurado um local perto do aeroporto, mas ainda não decidiram. “Ainda não sabemos onde ficará a igreja”, disse ao jornal a pastora Lise-Lott Wikolm. “Mas não deve ser muito difícil – ela é de madeira, dá pra simplesmente ser desmontada e montada de novo”. Fica em Kyrkogatan 8, +46-980-67800.

Informações. Escritório turístico de Kiruna Lappland: Lars Janssongatan 17, +46-980-18880. No verão o escritório abre das 8h30 às 20h de segundas a sextas-feiras e das 8h30 às 17h aos sábados e domingos. No inverno, os horários de funcionamento são: das 8h30 às 17h de segundas a sextas-feiras e das 8h30 às 14h aos sábados (fechado aos domingos).

Dados gerais. Capital: Estocolmo; moeda: coroa sueca; idioma: sueco; população: 9,3 milhões; horal local: +4h (com relação a Brasília); documentação: passaporte válido (turistas brasileiros não precisam de visto para permanência total de até 3 meses, mas as autoridades podem exigir a apresentação das passagens de ida e volta.