As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

VISÃO GLOBAL: A aposta da China

Redação Internacional

29 Março 2012 | 03h00

visao_global.jpg

Ao afastar do poder Bo Xilai e seu modelo regional de capitalismo de Estado, o Partido Comunista busca conter o risco de instabilidades econômica e política de uma só vez

STEPHEN S. ROACH
PROJECT SYNDICATE

O conceito fundamental que aprendi quando comecei a me concentrar no estudo da China, no final dos anos 90, é que nada é mais importante para os chineses do que a estabilidade – a estabilidade econômica, social ou política.

Considerando os séculos de turbulências desse país, os líderes de hoje farão tudo o que estiver em seu poder para preservar a estabilidade. Sempre que tenho alguma dúvida a respeito de uma possível mudança política chinesa, examino as opções pela lente da estabilidade. Sempre funcionou como um talismã.

A estabilidade era a preocupação de todos os participantes no Fórum sobre o Desenvolvimento da China (CDF, na sigla em inglês), o evento anual que ocorreu na semana passada em Pequim.

Organizado pelo primeiro-ministro Wen Jiabao, com a participação de muitos ministros do Conselho de Estado, o CDF é a conferência internacional mais importante do país. Dois dias antes da abertura, o controvertido Bo Xilai foi demitido do cargo de secretário do partido de Chongqing. A demissão de Bo, forte candidato a ingressar no Comitê Permanente do Politburo, o órgão mais poderoso da liderança chinesa, foi algo espantoso. Havia um zumbido palpável no ar quando nos reunimos no Hotel Diaoyutai State.

As sessões formais terminaram de forma previsível, com uma grande ênfase na futura transformação estrutural do modelo de crescimento da China – uma guinada colossal do poderoso crescimento com base nas exportações e nos investimentos dos últimos 32 anos, para um modelo mais dinâmico voltado para o consumo interno. Como disse um participante: “O debate mudou. O que importa não é mais o que fazer, e sim quando fazer”.

Muitos dos outros temas foram uma decorrência dessa conclusão geral. Destacou-se a nova estratégia voltada para o crescimento impulsionado pelos serviços e o desenvolvimento com base na inovação. Ao mesmo tempo, houve considerável preocupação com o recente renascimento das empresas estatais, o que fez com que a distribuição da renda nacional pendesse do trabalho para o capital – um dos principais impedimentos do reequilíbrio da China em favor do consumo. O Banco Mundial e o Centro de Pesquisas para o Desenvolvimento da China (que patrocinaram o CDF) acabavam de divulgar um relatório abrangente que tratava de muitos aspectos dessa questão crítica.

As atividades formais da CDF nem sequer acenaram para o elefante nos salões do Diaoyutai. Não houve uma referência a Bo Xilai e ao significado de sua saída do cenário da política interna da China neste ano crucial de transição. Embora seja fácil deixar-se envolver nas histórias e intrigas palacianas que se seguiram, desconfio que a saída de Bo tem um significado muito mais profundo.

Instabilidade. As autoridades chinesas enfrentavam o risco de uma perigosa interação da instabilidade política e da política econômica. Afetada por um segundo choque da demanda externa em três anos – o primeiro, com a crise subprime dos EUA, e agora com a crise da dívida soberana da Europa – qualquer surto de instabilidade política interna representaria uma ameaça muito maior do que se poderia supor.

Bo personificava esse risco. Ele incorporava o chamado “modelo Chongqing” de capitalismo de Estado que foi se impondo na China nos últimos anos – a urbanização controlada pelo governo e o desenvolvimento econômico que concentra o poder nas mãos dos líderes regionais e nas empresas estatais.

Passei algum tempo em Chongqing – uma imensa área metropolitana de mais de 34 milhões de pessoas – no verão passado. Fiquei pasmo com a dimensão dos projetos para a cidade. Orquestrado pelo prefeito Huang Qifan, o principal arquiteto do espetacular projeto de desenvolvimento do aeroporto de Pudong em Xangai, o objetivo é transformar a área de Liangjiang de Chongqing na primeira zona de desenvolvimento urbano no interior do país. Com isso, Liangjiang se colocaria no mesmo nível dos dois projetos anteriores localizados no litoral da China, que servem de modelo – Pudong e a área de Binhai de Tianjin.

Entretanto, esse é o mesmo modelo de desenvolvimento dominado pelo Estado que foi energicamente criticado no CDF deste ano – e contrasta consideravelmente com a alternativa mais voltada para o mercado que ganhou amplo consenso entre os líderes chineses do mais alto escalão.

Em outras palavras, Bo foi visto não apenas como uma ameaça à estabilidade política, mas também como o principal representante de um modelo de instabilidade econômica. Com a repentina demissão de Bo, o governo, de fato, evidenciou seu compromisso inabalável com a estabilidade.

Isso se encaixa com outra curiosa peça do quebra-cabeça chinês. Há cinco anos, Wen advertiu que a economia chinesa corre o risco de se tornar “instável, desequilibrada, descoordenada e insustentável”. Tenho ressaltado reiteradamente a importância desse conceito na formulação da estratégia voltada para o consumo da China do futuro. A crítica de Wen preparou o caminho para o país enfrentar os imperativos do seu reequilíbrio daqui para a frente.

Em suas observações formais no CDF deste ano, os líderes chineses – incluindo o primeiro-ministro designado Li Keqiang – abandonaram todas as referências explícitas aos riscos de uma economia chinesa “instável”.

Na China, tais mudanças de linguagem não são acidentais. A interpretação mais provável é que os membros do mais alto escalão não querem mais fazer qualquer concessão em matéria de estabilidade.

Solucionando o problema da instabilidade econômica por meio do reequilíbrio em favor do consumo, e da instabilidade política com o afastamento de Bo, a estabilidade deixou de ser um fator de risco para se tornar um compromisso inquebrantável.

A mensagem fundamental da China neste momento é inconfundível. Seus líderes são os primeiros a reconhecer que sua estratégia de crescimento e de desenvolvimento se encontra num ponto crítico. E temem que as “reformas e a abertura” de Deng Xiaoping corram o perigo de perder impulso. Solucionando o problema da interação entre os riscos econômicos e os riscos políticos para a estabilidade, o governo prepara o caminho para o próximo estágio do extraordinário desenvolvimento chinês. Não aconselho ninguém a menosprezar o seu compromisso de atingir esse objetivo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É EX-CHAIRMAN DO MORGAN STANLEY ASIA E O PRINCIPAL ECONOMISTA DA COMPANHIA, E ATUALMENTE É PESQUISADOR SÊNIOR DO INSTITUTO JACKSON DE NEGÓCIOS GLOBAIS DA JACKSON UNIVERSITY E CONFERENCISTA SÊNIOR DA ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO DE YALE. SEU LIVRO MAIS RECENTE INTITULA-SE ‘THE NEXT ASIA’