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VISÃO GLOBAL: A diplomacia de falar com o povo

Redação Internacional

26 Março 2012 | 12h31

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Ao dirigir-se diretamente à população de outros países, Hillary transforma gradualmente a política externa americana

No dia 1.º de fevereiro, o Conselho de Segurança da ONU se reuniu com o propósito de analisar a proposta da Liga Árabe para pôr fim à violência na Síria. A secretária de Estado Hillary Clinton representou os EUA na reunião. A certa altura, durante os seus comentários, ela começou a falar não ao embaixador sírio, que estava na sala, nem mesmo ao governo sírio, mas diretamente ao povo sírio. Ela disse que uma mudança na Síria exige que os sírios de todos os credos religiosos e etnias se unam e protejam e respeitem os direitos das minorias.

Dirigindo-se a essas minorias, ela prosseguiu: “Ouvimos as suas preocupações, e respeitamos as suas aspirações. Não deixem que o regime atual as explore para perpetuar essa crise”. Falando a empresários, militares de alta patente e outros políticos da Síria, ressaltou que eles devem reconhecer que o seu futuro está com o Estado e não com o regime. “A Síria pertence aos seus 23 milhões de cidadãos e não a um homem ou à sua família”.

Dirigir-se diretamente aos cidadãos – como o povo de um país e o seu governo – não é apenas um recurso de retórica. Enquanto muitos especialistas em política externa vêm ressaltando que os EUA são a “referência para a Ásia”, Hillary de sua parte vem executando uma ação menos divulgada, mas não menos importante para o povo asiático. Ela criou políticas, programas e reformas institucionais destinadas a respaldar a diplomacia do governo em relação à sociedade e de sociedade para sociedade. Essas iniciativas não dão manchetes, mas deverão transformar gradativamente grande parte da política externa americana.

Em janeiro, o Departamento de Estado inaugurou uma super agência para a segurança civil, a democracia e os direitos humanos, chefiada pela subsecretária Maria Otero. O órgão engloba as agências que exercem a fiscalização do cumprimento da lei, do contraterrorismo e de reconstrução e estabilização.

Maria Otero explica a lógica da iniciativa como a “proteção dos indivíduos”. Isso, por sua vez, exige “não apenas um compromisso de um Estado com outro”, mas também a colaboração “com os atores e os protagonistas fora dos canais tradicionais nos quais estamos atuando”. Visto dessa perspectiva, o contraterrorismo inclui a refutação da propaganda terrorista com uma campanha de comunicação estratégica.

Parceiros. Combater a violência dos narcotraficantes inclui trabalhar com o magnata mexicano das telecomunicações Carlos Slim para criar instrumentos que permitam aos cidadãos comuns denunciar a violência de maneira anônima por meio de mensagens de texto e permitir que a polícia mapeie os resultados. Fortalecer a democracia implica trabalhar com os desenvolvedores quenianos de uma plataforma de mapeamento da crise que permita a qualquer pessoa que tenha um celular denunciar fraudes eleitorais ou violência a uma central de monitoramento.

Numa relação de país para país, articular-se com o povo significa colaborar com os blogueiros do Egito e também com o Conselho Supremo das Forças Armadas, reunir-se com jovens empreendedores na Tunísia, Argélia e Marrocos e colocá-los em contato com entidades que oferecem financiamento e orientação. Significa usar a mídia social da Rússia para frustrar a campanha do governo para difamar o embaixador dos EUA. Significa patrocinar com o Brasil a Parceria para um Governo Aberto, que une os governos comprometidos em aumentar a transparência, a responsabilização e a participação dos cidadãos, usando a pressão mútua dos pares e a informação aberta para que cumpram os seus compromissos.

Hillary lançou um diálogo estratégico com a sociedade civil. Por exemplo, a embaixadora Melanne Verveer participou de mais de mil eventos em todo o mundo sobre a delegação de poderes às mulheres em áreas que vão desde negociações de paz à agricultura. Ela lançou ainda programas como mWomen, destinado a expandir e apoiar a tecnologia celular que aumenta a independência, a segurança das mulheres, o seu acesso à saúde e a conhecimentos cruciais. O Departamento de Assuntos Globais para a Juventude está montando um conselho local para a juventude em cada embaixada americana do mundo todo, para orientar e ajudar a implementar a programação das embaixadas para a juventude local.

Grande parte dos programas destinados a jovens, mulheres, empreendedores, diásporas, tecnologias e outros grupos sociais em parte é financiada e administrada pelo setor privado. De fato, a Estratégia Nacional de Segurança do governo Obama menciona “parcerias público-privadas” mais de 30 vezes. Hillary Clinton implantou a Iniciativa de Parceria Global para criar um grande número de coalizões, redes e parcerias com corporações, fundações, ONGs, universidades e outras organizações civis.

Aqui, a articulação com o povo inclui o povo americano: o dinamismo, a criatividade e os recursos de empresas americanas e organizações sem fins lucrativos já engajadas em todo o mundo. Uma iniciativa financiada pela empresa privada lançada pelo Departamento de Estado enviará 300 árvores para o Japão para que sejam plantadas na região arrasada pelo tsunami e em Tóquio, para expressar o apoio do povo americano ao povo japonês. Outra será constituída pelo envio de professores de inglês a todo o Sudeste Asiático.

Depois de participar da conferência Amigos da Síria, em Túnis, Hillary convocou uma reunião com a juventude tunisina. No início do seu discurso, ela disse aos ouvintes que “os jovens são o ponto focal de todas as grandes oportunidades estratégicas e dos desafios de hoje”. Falando dos esforços que vem empreendendo para que a “delegação de poderes às mulheres faça parte da agenda internacional”, ela acrescentou: “Está na hora de incluir também a delegação de poderes aos jovens”. As implicações de toda essa atividade, que Hillary chama de “arte de governar do século 21”, são profundas. De agora em diante, as relações diplomáticas dos EUA com as outras nações envolverão diretamente o povo desses países, relacionando-o ao povo americano na medida do possível. Da perspectiva dos diplomatas americanos, os povos de todos os países se encontram no mesmo pé de igualdade do seu governo. Esse pressuposto constitui o cerne da democracia; e uma revolução para a diplomacia.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA