Aumenta divergência entre EUA, Brasil e Turquia sobre Irã

Autoridades dos Estados Unidos disseram na sexta-feira que o acordo de combustível nuclear com o Irã não deve impedir uma nova rodada de sanções contra o país, o que coloca Washington em atrito direto com Brasil e Turquia, mediadores desse acordo.

ANDREW QUINN E BRIAN ELLSWORTH, REUTERS

28 Maio 2010 | 21h04

Reagindo ao endurecimento dos norte-americano, Brasil e Turquia, influentes membros não permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), reafirmaram sua defesa da proposta por considerá-la a melhor forma de reduzir as tensões em torno do programa nuclear iraniano.

"Sabemos que fizemos a coisa certa", disse o chanceler Celso Amorim a jornalistas ao lado de seu colega turco, Ahmet Davutoglu. "Estamos tentando um caminho de diálogo, um caminho de conversa e de entendimento, e isso produziu resultados", acrescentou.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, viajaram neste mês a Teerã para mediar o acordo pelo qual o Irã entregaria 1.200 quilos de urânio baixamente enriquecido à Turquia, para em troca receber, no prazo de até um ano, 120 quilos de urânio enriquecido a 20 por cento para uso em um reator de pesquisas médicas.

Essa proposta havia sido apresentada pela ONU em outubro, sob a premissa de que, enviando seu urânio ao exterior, o Irã não teria condições de enriquecer o material até o grau necessário para o uso em armas, um temor dos EUA e de seus aliados. Teerã garante que seu programa nuclear está voltado apenas para fins pacíficos.

Os EUA dizem que essa proposta não faz mais sentido porque, desde outubro, o Irã já acumulou mais urânio do que os 1.200 quilos que exportaria, além de ter anunciado que continuará enriquecendo urânio a despeito do acordo. Na opinião do governo Obama, Turquia e Brasil foram ludibriados pela República Islâmica.

"MOTIVAÇÕES DIFERENTES"

"Reconhecemos muito os sinceros esforços que foram feitos por Brasil e Turquia (...), mas infelizmente acho que as motivações das partes eram bastante diferentes", disse uma fonte norte-americana de alto escalão, pedindo anonimato.

"Acho que o principal interesse do Irã foi ter uma proposta em jogo que reduziria o impulso rumo a uma nova resolução com sanções."

Cinco grandes potências já aprovaram entre si o esboço de um quarto pacote de sanções ao Irã, que deve ser votado nas próximas semanas pelos 15 países do Conselho de Segurança.

"Na nossa opinião, a declaração conjunta (entre Brasil, Turquia e Irã) fica aquém do necessário. Mas a despeito dessa (...) proposta, é importante irmos a Nova York adotar a resolução", disse a fonte.

"Agora o Irã já praticamente dobrou a sua quantidade de urânio baixamente enriquecido. Mesmo que você mande 1.200 quilos para fora, há mais do que suficiente sobrando para produzir uma bomba nuclear", disse a fonte. "O tempo superou a proposta original, e isso não foi corrigido."

O Departamento de Estado dos EUA disse que a secretária Hillary Clinton deve discutir a questão do Irã na terça-feira com Davutoglu.

Falando nesta sexta-feira no Brasil, o chanceler turco disse que o seu país e o Brasil estão seguindo os passos do presidente dos EUA, Barack Obama, que se elegeu em 2008 propondo uma maior aproximação com o Irã.

"Este (acordo) é um sucesso para Turquia e Brasil, mas é também um sucesso para a política de engajamento do presidente Obama", afirmou Davutoglu.

(Reportagem adicional de Tsvetelia Tsolova, em Sofia)

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