Nobel para Obama é visto como estímulo, mas gera controvérsia

Presidente está no cargo há menos de 9 meses e ainda não obteve nenhum êxito expressivo na política externa

Agência Estado e Reuters,

09 Outubro 2009 | 11h16

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, levou nesta sexta-feira, 9, o prêmio Nobel da Paz, em uma escolha surpreendente do Comitê Norueguês do Nobel. A entidade citou o "novo clima na política internacional" trazido por Obama. O presidente está no cargo há menos de nove meses e ainda não obteve nenhum êxito expressivo na política externa, razão pela qual a decisão do Comitê Nobel Norueguês foi recebida com perplexidade.

 

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O Comitê do Nobel parabenizou seu esforço para dar ao mundo esperança por um futuro melhor e revigorar o papel da diplomacia multilateral na comunidade internacional. A decisão torna Obama, de 48 anos, filho de uma norte-americana com um queniano, o terceiro, após Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson, a ganhá-lo ainda no cargo. A vitória de Obama ocorre 45 anos depois de o prêmio ser concedido a Martin Luther King Jr., último afro-americano a ganhar o Nobel da Paz.

 

"Sua diplomacia é fundada no conceito de que aqueles que lideram o mundo devem fazer na base de valores e atitudes que são compartilhados pela maioria da população mundial", afirmou o comitê em comunicado. O comitê também deu "especial importância à visão e ao trabalho de Obama por um mundo sem armas nucleares".

 

Em um discurso durante uma reunião do G-20 em Pittsburgh, em 25 de setembro, Obama disse que o Irã deveria "deixar claras" suas ambições nucleares e escolher entre isolamento e cooperação. No discurso, ele estava ao lado do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, e do presidente francês, Nicolas Sarkozy. O ato foi um prelúdio das negociações multilaterais entre o Irã e o chamado sexteto (EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia, China e Alemanha) na semana passada, encerrando um impasse de sete anos com o país.

 

O comitê do Nobel também citou o esforço do presidente norte-americano no debate sobre mudanças climáticas. A vitória de Obama ocorre dois anos após o ex-vice-presidente dos EUA Al Gore dividir o prêmio Nobel da Paz com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês).

 

A surpreendente escolha pode gerar críticas segundo as quais o status do presidente, popular internacionalmente - especialmente em comparação com o antecessor George W. Bush -, se sobrepôs a sua falta de resultados no início do mandato. Segundo o comitê do Nobel, 205 nomes foram enviados para concorrer ao Nobel da Paz, 33 dos quais eram organizações.

 

Um membro do comitê de 5 pessoas, a política norueguesa Agot Valle, disse que a escolha de Obama ocorreu em grande parte por seus esforços em prol do desarmamento nuclear. Em entrevista por telefone, ela disse que a última reunião do grupo foi em 5 de outubro e a escolha foi por unanimidade. Agot disse que o recente trabalho de Obama na ONU para reforçar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear reforçou a candidatura. "Há críticas pela guerra no Afeganistão e eu entendo isso", notou Agot. "Mas este foi sobretudo um prêmio pelo seu trabalho e compromisso com o desarmamento nuclear - e seu diálogo. Claro que haverá críticas, porque ele não alcançou ainda suas metas. Levará tempo, mas isso é um estímulo."

 

De fato, as ações concretas de Obama na promoção de paz ainda estão em seus estágios iniciais. Ele herdou duas guerras, no Iraque e no Afeganistão, que se arrastam há anos, e perde parte de seu apoio entre os aliados e os eleitores norte-americanos. No momento, discute com sua equipe se envia mais tropas para lutar na guerra afegã.

 

Em junho, Obama viajou ao Egito, cumprindo sua meta de realizar um grande discurso ao mundo muçulmano. Funcionários da Casa Branca afirmaram que a reação foi amplamente positiva na região. O discurso, porém, também aumentou a pressão sobre a administração para realizar a retirada das tropas do Iraque, fechar a prisão na Baía de Guantánamo, Cuba, e reforçar a proibição da tortura.

 

No mês passado, Obama disse que pretendia abandonar um sistema antimísseis estabelecido na era Bush no Leste Europeu. Segundo o governo, a reformulação melhorará a segurança do país e da região no longo prazo. Com isso, os EUA encerraram uma disputa com Moscou, que se opunha duramente aos interceptadores de mísseis na Polônia e ao radar na República Checa, afirmando que isso era também uma ameaça aos russos.

 

"Quem?"

 

O ex-presidente da Polônia Lech Walesa, que ganhou o Nobel da Paz em 1983, disse estar chocado com a notícia. "Quem? O quê? Tão rápido?", questionou ele em uma entrevista à televisão polonesa, durante um evento em Varsóvia. "Bem, não houve nenhuma contribuição para a paz ainda. Ele está propondo coisas, começando coisas, mas ainda precisa realizá-las", avaliou Walesa. "Eu vejo duas razões para esse prêmio: é concedido por coisas que alguém fez e também para encorajar alguém a fazê-las. Ocorreu a última aqui."

 

Estadistas como Nelson Mandela e Mikhail Gorbachev, ambos já laureados com o Nobel, elogiaram a decisão. Outros setores disseram que a homenagem foi apressada e não-merecida. "Obama ainda tem um longo caminho a percorrer e muito trabalho a fazer antes que possa merecer uma recompensa," disse Sami Abu Zuhri, dirigente do grupo islâmico palestino Hamas. "Obama fez apenas promessas e nenhuma contribuição palpável para a paz mundial. E ele não fez nada para garantir a justiça nas causas árabes e muçulmanas."

 

Em Bagdá, o trabalhador braçal Issam al Khazraji disse: "Ele não merece o prêmio. Todos esses problemas - Iraque, Afeganistão - não foram resolvidos. O homem da 'mudança' não mudou nada ainda". Liaqat Baluch, dirigente do grupo religioso conservador paquistanês Jamaat-e-Islami, qualificou o prêmio como uma "piada" constrangedora. Já o negociador palestino Saeb Erekat elogiou a escolha e manifestou esperança de que Obama "consiga obter a paz no Oriente Médio."

 

Thorbjoern Jagland, presidente do Comitê Nobel, rejeitou insinuações de jornalistas de que Obama estaria recebendo o prêmio cedo demais, argumentando que ele já fez muita coisa no último ano. "Esperamos que isso possa contribuir um pouquinho para enfatizar o que ele está tentando fazer," afirmou Jagland em entrevista coletiva.

 

Sem citar seu antecessor George W. Bush, o comitê salientou as diferenças no envolvimento dos EUA com o resto do mundo desde a mudança de governo em Washington, em janeiro. "A diplomacia multilateral recobrou uma posição central, com ênfase no papel que as Nações Unidas e outras instituições internacionais podem desempenhar."

 

Em seu primeiro discurso na Assembleia Geral da ONU, Obama buscou distanciar seu país da era unilateral de seu antecessor. "A América viverá por seus valores" em direitos humanos, prometeu, notando que iria encarar a tarefa de enfrentar os abusos e falhas tanto de aliados quanto de inimigos. No discurso, o presidente delineou os "quatro pilares" do que ele considera "fundamental para o futuro que queremos para nossos filhos": desarmamento nuclear, a paz no Oriente Médio, a recuperação do meio ambiente e o crescimento econômico. Ele criticou a Coreia do Norte e o Irã e advertiu para as consequências de estas nações não recuarem de seus programas nucleares.

 

Obama pediu ainda em sua fala na ONU o fim da "ocupação iniciada em 1967" de terras palestinas, em uma referência à Guerra dos Seis Dias vencida por Israel. Mas também afirmou que era preciso aceitar "o Estado judeu de Israel, com segurança para todos os israelenses".

 

Ainda que os juízes do Nobel tenham dito que esperavam reforçar os esforços diplomáticos de Obama, o prêmio aparece como uma distração indesejada para a Casa Branca, já diante de importantes obstáculos para avançar em sua ambiciosa agenda política.

 

A honraria deve ser recebida com desdém pela direita, onde os críticos acusam Obama, desde anos antes de sua chegada à Casa Branca, de receber elogios e atenção não merecidos. A aprovação do presidente caiu para quase 50% nos EUA, e a premiação deve reforçar a impressão de alguns círculos de que Obama é mais amado na Europa que em casa.

 

No front da política externa - o foco desta edição do prêmio -, a administração Obama ainda está engatinhando. Os auxiliares de Obama trabalham para convencer o Irã a desistir de seu suposto programa de armas nucleares, mas o esforço permanece como frágil e seu sucesso é incerto. Além disso, sua equipe de política externa analisa como alterar sua estratégia para a guerra de oito anos no Afeganistão, onde as condições em muitos aspectos pioraram.

 

Também por resolver na nova administração estão temas como a prisão mantida em Guantánamo. Obama recebeu elogios internacionais quando anunciou que pretendia fechar a prisão, durante a campanha do ano passado, mas tornar isso realidade mostra-se difícil. A administração também foi criticada por grupos de direitos humanos por manter algumas das políticas para presos da era Bush e por seus esforços débeis para pressionar o governo sudanês pelo prolongado conflito em Darfur.

 

Os prêmios Nobel para governantes no cargo geram há tempos controvérsias. Em 1973, o secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger venceu por seus esforços por um acordo de paz no Vietnã. Os prêmios para ativistas em dificuldades, como para o líder trabalhista Lech Walesa em 1983, geralmente dão a seus ganhadores uma importância que auxiliou no trabalho deles.

 

O chefe-de-gabinete Rahm Emanuel disse que o presidente não tinha nada a temer sobre o aumento das expectativas ou as possíveis críticas sobre o prêmio, "pois isso está associado com o contexto de seu trabalho".

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