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Violência policial contra negro é rotina nos EUA

Cláudia Trevisan, enviada especial - O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2014 | 20h 28

Caso de Ferguson, que mobilizou os americanos nos últimos dias, foi apenas mais um em meio ao longo histórico de episódios semelhantes espalhados pelo país

Chris Dunn/AP
Reação. Protesto na Pensilvânia contra mortes de negros

FERGUSON - A morte a tiros de Michael Brown por um policial branco em Ferguson, Missouri, capturou a atenção da América e do mundo, mas está longe de ser um caso isolado nos EUA. Nos últimos 40 dias, ao menos quatro outros negros desarmados morreram vítimas da violência das forças de segurança.

Quatro dias antes do caso de Ferguson, John Crawford, de 22 anos, foi morto a tiros pela polícia dentro de um Wall-Mart em Ohio, onde é possível comprar vários tipos de armas. Crawford havia pego um rifle de ar comprimido, sem potência para matar pessoas, e estava na sessão de videogames quando foi atingido no peito. “Por que John Crawford, um cliente do Wall-Mart, foi morto a tiros por carregar um rifle de ar comprimido dentro de uma loja que vende armas de ar comprimido?”, perguntou o advogado que representa sua família, Michael Wright.

Dois dias depois da morte de Brown, um negro de 25 anos com problemas mentais foi morto a tiros pela polícia em Los Angeles. Ezell Ford foi abordado por dois policiais e levou um tiro nas costas. Os oficiais sustentaram que, após ter sido colocado no chão, Ford teria tentado pegar a arma de um deles e acabou atingido pelo outro.

“Casos como o de Michael Brown são muito mais comuns do que as pessoas imaginam”, disse ao Estado Delores Jones-Brown, diretora do John Jay College Center on Race, Crime and Justice, em Nova York. 

Desde o fim dos anos 90, ela acompanha casos de violência policial contra negros e diz que eles estão longe de se concentrarem em áreas pobres. “Você pode ser qualquer pessoa negra e você não estará protegido da possibilidade de morrer nas mãos da polícia. Os casos que estudei incluem atores de Hollywood, outros policiais, homens e mulheres, pessoas jovens e velhas, estudantes de segundo grau e universitários e profissionais bem-sucedidos”, observou.

Nem sempre as mortes são provocadas pelo uso de armas de fogo. Em 17 de julho, Eric Garner, pai de seis filho, morreu após ser imobilizado por um policial de Nova York com uma “gravata”, tática banida na cidade desde 1993. Garner havia sido abordado por vender cigarros no mercado informal. Imobilizado pelos policiais, ele aparece em um vídeo dizendo “não consigo respirar”.

Philip Stinton, professor da Universidade Estadual Bowling Green, de Ohio, disse ao Estado que há uma cultura de violência na polícia, que teria sido reforçada por deficiências no treinamento sobre os limites do uso de força letal. Jones-Borwn defende que o presidente Barack Obama inicie ampla investigação sobre a brutalidade judicial e problemas do sistema judiciário.