Assessor de Lula critica política externa de Obama

Garcia ataca posição dos EUA sobre Honduras e diz que há 'frustração' com a política externa do americano

Tânia Monteiro, O Estado de S. Paulo

25 Novembro 2009 | 07h57

Apesar de ressaltar que a política externa brasileira "não é marcada pelo confronto", o assessor especial da Presidência da República Marco Aurélio Garcia foi explícito ao qualificar de "equivocada" a posição dos Estados Unidos sobre a crise em Honduras. Ao fazer um balanço crítico dos dez meses do governo de Barack Obama e da relação com os países latino-americanos, Garcia disse que há "uma certa decepção" e uma "certa frustração" com a política externa do presidente americano, que espera que sejam revertidas.

No embalo da avaliação do governo Obama, o assessor presidencial para Assuntos Internacionais criticou também a posição da Casa Branca sobre as negociações da Rodada Doha - para a liberalização das tarifas do comércio internacional - e da Conferência do Clima, entre os dias 7 e 18 em Copenhague. "Todo aquele clima favorável, que se criou com a eleição do presidente Obama, que se fortaleceu na reunião de Trinidad e Tobago (Cúpula das Américas, em abril), começa a se desfazer um pouco", disse Garcia.

A irritação do governo brasileiro com os EUA, manifestada pelo assessor do Planalto, referiu-se em grande parte à decisão do governo Obama considerar legítima a eleição de domingo em Honduras mesmo sem a restituição ao poder do presidente deposto Manuel Zelaya. "Achamos lamentável que se queira limpar um golpe de Estado com um processo de eleição em um país que vive virtualmente sob estado de sítio há meses, com repressão diária e manifestações", afirmou Garcia.

Carta de Obama

Garcia confirmou que Obama enviou no domingo uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Entre outros temas, a carta aborda o caso hondurenho e justifica a posição da Casa Branca. Os EUA pressionam os países latino-americanos a reconhecer a eleição como uma espécie de ato institucional que serviria para "zerar" a crise política em Honduras.

Na avaliação de Garcia, Honduras corre o risco, após as eleições, de "viver um período de alta instabilidade e nós não queremos assumir de modo nenhum a responsabilidade dessa situação". Ao contrário do que pensam os EUA, disse, "a eleição não transcorrerá em um clima tranquilo porque haverá uma parte importante da população que não participará da eleição". Ele reclamou da posição americana diante da crise: "Os EUA poderiam ter usado, no devido momento, pressões mais fortes para que os golpistas, e Micheletti em particular, fossem para o fundo do cenário." Ele deu a entender que as negociações da Rodada Doha têm perspectivas pouco otimistas por causa da resistência dos EUA em reduzir subsídios e tarifas.

O Departamento de Estado disse que não comentaria as observações de Garcia de que o Brasil estaria "frustrado e decepcionado" com a política de Obama para a América Latina. Charles Luoma-Overstreet, porta-voz da divisão de Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado, limitou-se a dizer: "O Brasil é um parceiro importante e continuamos buscando maneiras de colaborar com o Brasil em relação a Honduras."

(Com Patrícia Campos Mello, de O Estado de S. Paulo)

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