Avança diálogo entre EUA e Cuba

Ainda que extraoficialmente, países mantêm constantes contatos para normalizar relação bilateral

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

24 Novembro 2009 | 07h39

Ainda que discretamente, os EUA ensaiam um diálogo com Havana. No entanto, os esforços, por enquanto, têm esbarrado na recusa do regime cubano em fazer concessões sobre os direitos humanos e no lobby cubano dentro dos EUA. Em Havana, porém, ninguém mais esconde que o diálogo com Washington sofreu uma mudança profunda desde a chegada do presidente Barack Obama ao poder. A Casa Branca insiste que, sem sinais de abertura, dificilmente haverá espaço para uma aproximação política ou comercial.

 

Já Cuba deixa claro que não aceita fazer um "gesto de boa vontade" como condição para a aproximação. Para Havana, são os americanos que primeiro devem rever o embargo contra a ilha. Havana afirma que está disposta a dialogar, mas tenta impor suas condições.

 

Apesar de rejeitar gestos de boa vontade, Havana indica que está disposta a aproximar-se de Washington. Hoje, 70% dos alimentos importados pela ilha vêm dos EUA, o que tornou Cuba dependente dos americanos. A maior fonte de renda local ainda é a remessa de dinheiro dos cubanos que vivem nos EUA. Por dia, sete voos já fazem a ligação Havana-Miami.

 

Para a especialista Laurie Garrett, do Council on Foreign Relations, um dos mais influentes centros de pesquisa dos EUA, até existe vontade política de Obama para mudar a relação com Cuba, mas Washington tem hoje outras prioridades.

 

"Há uma relação menos agressiva por parte da Casa Branca, mas o fim do embargo dependerá de uma negociação interna entre a Casa Branca, o Congresso e o lobby anticastrista. Com uma crise financeira, duas guerras para resolver (Afeganistão e Iraque) e a disputa para aprovar a reforma do sistema de saúde nos EUA, Obama não tem como colocar Cuba como uma prioridade", disse Laurie.

 

No entanto, isso não paralisou o diálogo. O Estado obteve confirmações de que a Suíça tem tentado negociar com Cuba uma abertura no tema dos direitos humanos. Em entrevista ao Estado, o chefe da divisão política da chancelaria da Suíça, Thomas Greminger, confirmou o diálogo, mas admitiu que os cubanos estão divididos. "A geração mais antiga ainda acha que os direitos humanos são arma do imperialismo. A nova geração já sabe que o tema é importante", disse Greminger.

 

A aproximação passa pela negociação bilateral em várias áreas. Em setembro, um grupo do Departamento de Estado passou uma semana conversando com Havana sobre temas relacionados às telecomunicações. Em julho, uma reunião entre os dois países já havia tratado da questão da imigração.

 

Outra vertente de aproximação é a área científica. Há um mês, americanos ganhadores do Nobel de Química estiveram em Havana para estabelecer contatos com laboratórios locais. Na semana passada, mais de 80 cientistas americanos desembarcaram na ilha para conhecer hospitais e laboratórios. Entre eles, a alta cúpula da gigante farmacêutica Pfizer.

 

O repórter viajou a convite do Global Health Forum, órgão da ONU, para participar do evento ‘Inovações em Saúde’, em Havana, de 15 a 17 de novembro

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