Henry Romero/Reuters
Henry Romero/Reuters

Candidato hondurenho lidera protestos e apela por apoio do exército

Toque de recolher foi imposto pelo atual presidente contra os protestos de oposicionistas

Reuters

04 Dezembro 2017 | 05h09

TEGUCIGALPA - Dezenas de milhares de hondurenhos marcharam no domingo, 3, nos maiores protestos desde a disputa das eleições presidenciais da semana passada, com a resistência intensificando-se por causa de uma contagem errática de votos que parece mostrar que o atual presidente deve ter um segundo mandato.

À medida que a noite caiu, o barulho de buzinas de plástico e de carros, fogos de artifício e de panelas sendo batidas ecoou sobre a capital Tegucigalpa, desafiando um toque de recolher imposto pelos militares para reprimir os protestos que se espalharam recentemente, em alguns casos resultando em mortes.

O candidato da oposição Salvador Nasralla, um famoso astro de TV, discursou em um gigantesco comício ocorrido no início do dia na capital, pedindo às forças armadas que se rebelem contra as ordens de imposição do toque de recolher e encorajou os simpatizantes a marcharem em uma greve nacional a partir de segunda-feira, 04.

"Eu convoco todos os membros das forças armadas para que se rebelem contra seus chefes", disse Nasralla a uma multidão de apoiadores que vaiavam soldados que estavam por perto. "Você está lá, não deveria estar lá, você deveria fazer parte destas pessoas", disse ele.

Nasralla acusa o governo de tentar roubar as eleições da semana passada. Imagens de TV locais mostraram protestos semelhantes em outras grandes cidades. Não houve registro de violência durante os protestos de domingo, mas centenas foram presas e pelo menos três pessoas morreram nos últimos dias.

O governo impôs um toque de recolher na última sexta-feira, ampliando os poderes do exército e da polícia para deter pessoas e romper bloqueios de estradas, pontes e edifícios públicos.

No início da semana passada, Nasralla aparecia com vantagem de cinco pontos com relação ao presidente Juan Orlando Hernández, apoiado pelos Estados Unidos, com quase dois terços dos votos computados. Após uma pausa inexplicada de mais de um dia na contagem, o número de votos começou a pender a favor do atual governante. 

"Foi uma mudança gigantesca", disse Mark Weisbrot, do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, com sede em Washington. "As chances de isso ocorrer, os primeiros 57 por cento foram desenhados como uma amostra aleatória das folhas de contagem, é quase impossível".

O tribunal eleitoral, liderado por um membro do partido de Hernandez, iniciou uma recontagem parcial, que deveria se prolongar até as primeiras horas desta segunda-feira,04.

No final do domingo, Hernandez tinha quase 43% dos votos, enquanto Nasralla tinha pouco menos de 41,4%, com quase 96,4% dos votos registrados, de acordo com o site do tribunal. Mais cedo, as autoridades afirmaram que anunciariam um vencedor em breve.

Nasralla exigiu que a recontagem fosse ampliada para incluir milhares de seções eleitorais, mas as autoridades não concordaram em expandir a revisão.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) disse em um comunicado que o tribunal não deveria parar com a recontagem limitada. A OEA disse que o pedido de Nasralla para recontar os votos de mais de 5.000 seções era plausível.

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O Papa Francisco pediu uma solução pacífica para a crise política em Honduras, enquanto o Escritório dos Direitos Humanos da ONU solicitou às autoridades que respeitassem o direito do cidadão de protestar.

O presidente da Venezuela acusou os Estados Unidos de apoiarem a fraude eleitoral no país, enquanto o alto funcionário da embaixada dos Estados Unidos elogiou os protestos pacíficos de domingo e a contagem final "ordeira" em andamento.

O país centro-americano luta contra a violência do tráfico de drogas, uma das maiores taxas de homicídios do mundo e a pobreza endêmica, que levou uma onda de hondurenhos a migrarem para os Estados Unidos.

"Não podemos continuar com este presidente. Temos medo de sair de nossas casas. Queremos estudar e ter um futuro que não seja apenas mudar para os Estados Unidos ou ser morto por gangues", afirmou Marilyn Cruz, uma estudante de direito de 27 anos de idade, que se juntou aos protestos do domingo.

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Hernandez, de 49 anos, implementou uma repressão militar contra a violência das gangues depois de assumir o cargo em 2014. Ele foi apoiado pelo chefe de gabinete do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, John Kelly, que era um alto general da administração anterior.

Nasralla, de 64 anos, é um dos rostos mais conhecidos de Honduras e é apoiado pelo ex-presidente Manuel Zelaya, um esquerdista deposto em um golpe em 2009.

Desde o final da semana passada, três pessoas morreram quando soldados reprimiram os bloqueios e as barricadas com pneus em chamas. Haviam também relatos de que entre quatro a cinco pessoas teriam sido mortas a tiros no norte do país na sexta-feira. /REUTERS

 

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