César Castillo ficou sabendo que era Horacio Pietragalla

Horacio Pietragalla descobriu aos 27 anos que era um desaparecido, filho de desaparecidos

Ariel Palácios, de O Estado de S. Paulo,

19 Novembro 2009 | 16h18

Horacio Pietragalla foi entrevistado pelo Estado em 2003, quando foi anunciada oficialmente sua verdadeira identidade. Esta é a entrevista feita na época, na qual ele explicou a necessidade de "sempre saber a verdade".

 

Nos últimos seis meses, a vida de César Castillo sofreu uma brusca reviravolta. Ele descobriu que aqueles que o haviam criado não eram seus pais, e que seu nome verdadeiro era Horacio Pietragalla. Ele era mais uma das 500 crianças sequestradas pelos militares durante a última Ditadura.

 

Horacio, o mais recente filho de desaparecidos descoberto pela organização das Avós da Praça de Mayo, é o 75º neto que recupera sua identidade. Ele também foi o primeiro a anunciar pessoalmente à imprensa a descoberta. Para a líder das Avós, Estela De Carlotto, ele é "o último desaparecido com vida".

 

Antes dessa brusca mudança em sua vida, ele e sua namorada pretendiam mudar-se ao Brasil, país que admiram. Agora, querem ficar na Argentina e abrir um refeitório popular para ajudar os pobres. Ele relatou ao Estado como descobriu que era filho de desaparecidos políticos e como foi a adaptação à nova identidade.

 

Estado: Você um dia pensa que é alguém. No dia seguinte descobre que é outro…

 

Pietragalla: Nasci no dia 11 de março de 1976. Mas até poucos meses eu pensava que havia nascido no dia 22 de maio de 1977. Um ano a menos da idade real! Eu pensava que era César Sebastián Castillo, e agora eu sou Horácio Pietragalla Corti. Fui levado pelos militares quando tinha cinco meses. Eu, que acreditava em horóscopos, já não acredito mais. Antes, eu lia "gêmeos" e pensava: "puxa, esses astrólogos acertam tudo". Eu até fiz uma carta astral!

 

Estado: Quando começou a suspeitar que poderia ser uma crianças sequestrada?

 

Pietragalla: Aos 11 anos, pois era muito mais alto do que meus pais. Além disso, minha mãe trabalhava como doméstica na casa de um militar que morava no mesmo prédio. Não existiam fotos de minha mãe grávida e o militar era meu padrinho. Quando eu tinha 15 anos descobriram que uma das duas filhas do militar era uma criança sequestrada. Ele era uma espécie de Papai Noel macabro: dava crianças de presente. Mas eu continuava com minha vida normal, sem investigar. Hoje me arrependo, pois teria gostado de saber quem eu era muito antes, para ter conhecido seres queridos que já faleceram. Um dia, no ano passado, minha mãe disse à minha namorada em tom de mistério que quando falecesse iríamos ficar sabendo de uma notícia "muito forte". Desconfiei. Fomos à Comissão Nacional de Direito à Identidade (Conadi), que trabalham com as Avós da Praça de Mayo. As Avós me contaram que suspeitavam há tempo de meu caso.

 

Estado: Teus pais admitiram teu sequestro?

 

Pietragalla: Antes de fazer o exame de ADN, disse a eles que estava muito agradecido por tudo, que eram "meus pais do coração", mas que saber a verdade sobre minha identidade era muito importante. Eles nem desconfiavam que eu estava investigando tudo. Minha mãe desmoronou. Meu pai ficou muito nervoso. Mas contaram tudo: minha mãe, enquanto limpava a casa do militar, ouviu que um cunhado seu, que também era oficial, havia encarregado um menino, que era eu. Mas, a esposa desse militar se arrependeu em cima da hora, e minha mãe, preocupada comigo, me pediu.

 

Estado: Como foi o reencontro com tua família biológica?

 

Pietragalla: Quando o resultado do ADN deu positivo, as Avós festejaram e me perguntaram e me apresentaram minha família verdadeira. Meus tios choravam. Não podiam acreditar como eu era parecido com o rosto de minha mãe e a altura de meu pai (1,93 metro). Meus tios sempre falavam entre eles sobre mim: "ele estará vivo? Mora no país? Como será que ele pensa?". Diziam que tinha os mesmos gestos de papai…e eu nem o conheci. Me contaram que meus pais eram militantes Montoneros. Meu pai deu aulas de alfabetização nas favelas. A fins de 1975, viajou à cidade de Córdoba, onde desapareceu, assassinado por para-militares. Minha mãe, que já estava grávida foi para a clandestinidade, na Grande Buenos Aires. Eu nasci e ela me colocou o mesmo nome de meu pai.

 

Estado: Conte-me como foi teu sequestro.

 

Pietragalla: Um dia, enquanto ela estava em uma casa de outras militantes, o exército entrou metralhando tudo. Mataram todos, menos a mim, que fui levado para uma clínica. Meus avós maternos ficam sabendo, e meu avó foi correndo me pegar. Mas quando ele chegou na clínica, um militar já me havia levado. Me perdeu por duas horas. Meu avô paterno foi torturado psicologicamente pelos militares, que lhe telefonavam para dizer que haviam encontrado pedaços do corpo de seu filho. Ele não resistiu e morreu dois anos depois. Minha avó materna se suicidou, jogando-se debaixo de um trem, em 1998.

 

Estado: O que pensa das crianças sequestradas que apesar de serem informadas que seus supostos pais são na verdade seus sequestradores, rechaçam conhecer a família original e fazer o exame de ADN?

 

Pietragalla: É algo muito louco. Eles foram criados sem a verdade. Mas, quem fica sabendo, porque não fazer o exame de ADN? Não dá para viver com essa dúvida. Saber a verdade não te estraga a vida. A vida já foi estragada por outros....

 

Estado: Teus pais eram Montoneros. O que você pensa da luta armada?

 

Pietragalla: Não sei se está bem ou mal. Nos anos 70 era a única forma da Argentina ter uma mudança, pois o país estava sendo arruinado por uma sequência de golpes militares. Meus pais queriam uma sociedade mais igualitária.

 

Estado: Setores da direita afirmam que já que os militares serão julgados novamente, guerrilheiros da esquerda também teriam que ser levados à Justiça...

 

Pietragalla: Os militares já julgaram as pessoas de esquerda. Foram fuziladas sumariamente. Foi tudo muito diabólico. Não tiveram chance alguma de defesa. Se quiserem julgar meu pai de novo, vão ter que ir buscá-lo no além....

 

Estado: Como foi o encontro com os ossos de seu pai?

 

Pietragalla: Há três semanas me informaram que haviam encontrado os ossos de meu pai, em Córdoba. Fui até lá, fiz uma missa, vi o lugar onde o assassinaram, e passei pelo bar onde ele estava tomando café quando os militares o levaram. Fiz todo esse trajeto levando os ossos em um pequeno caixão.

 

Estado: Com tudo o que aconteceu em menos de seis meses, já foi ao psicólogo?

 

Pietragalla: Não quis. Se perceber que estou ficando mal, irei. Foi tudo muito rápido. E pensar que descobri que a sogra do militar que me sequestrou era vizinha de minha avó. Ela sabia tudo, enquanto minha avó morria de angústia. Muito louco. Só estou esperando os resultados do teste para confirmar que os ossos encontrados em um cemitério são os de minha mãe. Assim, espero concluir este ano com fecho de ouro...

Mais conteúdo sobre:
Argentina ditadura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.