Walter Diaz/AFP
Walter Diaz/AFP

Com inflação estimada em 25%, Argentina está longe da normalidade pregada por Cristina

Analistas apontam que um passo inevitável, seja qual for o vencedor das eleições presidenciais no país, é admitir a inflação real e corrigir o déficit fiscal

Rodrigo Cavalheiro, correspondente, O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2015 | 18h39

BUENOS AIRES - A presidente Cristina Kirchner disse ter deixado um "país normal" ao votar nas eleições presidenciais na Argentina, realizadas neste domingo, 25. A líder fez uma alusão ao que o marido, Néstor Kirchner, disse em 2003 ao assumir o governo. 

Porém, quem assumir a Presidência em 10 de dezembro encontrará um país com a economia desequilibrada e necessidade de mudanças. O quadro está longe da normalidade pregada por Cristina, ainda que não no caos que parte dos especialistas previa para o fim de seu mandato. 

Ela deixa uma economia com inflação anual de 15% ao ano - 25% segundo consultorias - e baixas reservas em dólares (US$ 27 bilhões), o que levou a um controle sobre a moeda americana em 2011. Também está pendente a negociação com os chamados "fundos abutres", credores que não aceitaram a renegociação da dívida argentina e exigem pagamento integral.

Analistas consideram que um passo inevitável, seja qual for o ganhador, é admitir a inflação real e corrigir o déficit fiscal. Só isso permitiria retomar o controle da política monetária. Os planos sociais de auxílio serão preservados, já que tornaram-se direitos e os três candidatos prometeram mantê-los mesmo que não fossem lei. Segundo a Universidade Católica Argentina (UCA), 28,7% dos lares argentinos têm algum benefício. 

Os primeiros subsídios cortados tendem a ser os de transporte e energia, que consomem respectivamente 1,2% e 3,3% do PIB, segundo o Centro de Implementação de Políticas Públicas para Equidade e Crescimento (Cippec). Este mesmo organismo independente estima em 4,8% do PIB o gasto anual com subsídios - em 2006, antes de Cristina assumir, era de 1,4%. No total, as ajudas do governo representam 36% do gasto público. Esse corte de subsídios tende a atingir as classes média e alta.

Há planos variados para lidar com a falta de dólar e o controle sobre o câmbio. Apoiado por Cristina, o governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli, não pretende mexer no câmbio a curto prazo. Na semana passada, nomeou Silvina Batakis para o cargo de ministra da Economia. Em agosto, ela disse que considerava inadequada uma desvalorização sem primeiro elevar as reservas em dólar do país. 

O conservador Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, aposta que um possível segundo turno será definido não por ideias, mas pela contraposição entre continuidade e mudança (mencionada por 60% da população). Em relação ao dólar, pretende retirar o controle no primeiro dia de governo.

O ex-kirchnerista Sergio Massa estipulou um prazo de 100 dias derrubar o "cepo", nome de uma tortura que imobiliza a vítima e apelido dado ao controle cambial. Na primária obrigatória do dia 9 de agosto, Scioli obteve 38,6% dos votos. O grupo de Macri teve 30% e o de Massa, 20,5%. As últimas pesquisas, divulgadas na semana passada, mostraram números semelhantes.  Para vencer no primeiro turno, Scioli precisa alcançar 40% e abrir 10 pontos sobre o segundo colocado, possibilidade também contemplada pelos levantamentos, em função da margem de erro.

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