Corte argentina julga 15 militares por crimes da ditadura

Membros do 'Circuito de Torturas' usavam braçadeiras com suásticas e jogavam água fervendo nos prisioneiros

Ariel Palacios, O Estado de S. Paulo

24 Novembro 2009 | 07h41

"Club Atlético", "El Banco" e "Olimpo" podem parecer nomes de times de futebol. No entanto, eram as designações de um sombrio trio de centro de torturas da ditadura militar argentina (1976-83) que funcionavam "em rede", já que seus prisioneiros eram transferidos de um lugar para outro e seus torturadores também eram intercambiados. Os responsáveis pelas graves violações aos Direitos Humanos ocorridas no "Circuito de torturas" - 15 oficiais e suboficiais do Exército e da Polícia Federal - sentarão a partir desta terça-feira, 24, no banco dos réus no Tribunal de Buenos Aires.

 

Com a presença de 400 testemunhas, quinze ex-integrantes da ditadura serão julgados pelas acusações de sequestrar, deter de forma ilegal, torturar, estuprar e assassinar 184 civis, além do sequestro de crianças e do roubo de bens dos desaparecidos. Por esse circuito desses três centros de tortura passaram, segundo estimativas, 1.500 prisioneiros, várias delas mulheres grávidas que deram à luz em cativeiro. Depois do parto, eram assassinadas pelos militares e policiais. Entre os protagonistas do circuito dos três centros de detenção estão alguns dos mais famosos torturadores da ditadura, entre eles o policial Julio "El Turco" Simón (famoso por estuprar as prisioneiras na frente de seus maridos, com a justificativa de que o fazia "pela Pátria").

 

Simón ficou notório por seu sadismo extremo com os prisioneiros judeus (aos quais empalava com um cabo de vassoura) e deficientes físicos (que costumava jogar do alto de uma escada). Simón ostentava frequentemente uma braçadeira com uma suástica durante as sessões de tortura ouvia marchas alemãs e discursos de Adolf Hitler. O ex-policial tinha o sinistro "hobby" jogar água fervendo em cima dos prisioneiros. Em seus tempos de glória durante o regime militar, Simón definia a si próprio como "Deus da vida e da morte". Simón, há dois anos, confessou: "o critério geral era matar todo mundo".

 

Outro integrante do grupo é o ex-agente de inteligência Raúl Guglielminetti, um dos principais homens do "Plano Condor", como foi denominado o sistema de captura e intercâmbio de prisioneiros políticos e informação entre as Ditaduras do Cone Sul nos anos 70. Guglielminetti adquiriu notoriedade nas forças de segurança quando - entre 1974 e 1975 - foi o braço direito de Aníbal Gordon, chefe da organização paramilitar "Triple A" (Tríplice A). Após o golpe de 1976, ele transformou-se no chefe do poderoso Batalhão 601 de Inteligência. No início dos anos 80 Guglielminetti foi enviado pelos militares para colaborar com os "contras" da Nicarágua, onde especializou-se na lavagem de dinheiro proveniente do narcotráfico.

 

Além deles sentará no banco dos réus Ricardo Taddei, que simulava ser um sacerdote católico para ouvir confissões dos prisioneiros, aos quais posteriormente "absolvia" ou "castigava". As estimativas indicam que o julgamento durará oito meses. Daqui a duas semanas será a vez do início do julgamento dos envolvidos nas torturas e assassinatos da Escola de Mecânica da Armada (ESMA). A estrela desse julgamento será o ex-capitão Alfredo Astiz, mais conhecido como o "anjo loiro da morte".

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