EUA querem introduzir 'golpe preventivo' na AL, diz Garcia

Assessor de Lula denuncia que política americana para Honduras tem como objetivo 'legitimar golpe'

Denise Chrispim Marin e Lisandra Paraguassú, O Estado de S. Paulo

27 Novembro 2009 | 07h36

Em mais um sinal de desaprovação do Planalto à política dos EUA para Honduras, o assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, disse ontem temer que a posição americana introduza na América Latina a tese do "golpe preventivo".

 

Veja também:

link Observadores chegam para eleição hondurenha deste domingo

link Lula responde carta a Obama e amplia temas no diálogo

link Governo brasileiro não reconhecerá eleição em Honduras

especial Especial: O impasse em Honduras   

Garcia insistiu que essa conduta tem o objetivo de "branquear" (legitimar) o golpe e seus articuladores - os EUA e alguns países alinhados da região - serão os responsáveis por um longo período de instabilidade em Honduras. "Nossa preocupação é que introduzam a tese do golpe preventivo na América Latina", disse, referindo-se ao que ocorreu no país centro-americano: um golpe desferido sob o pretexto de que o atual governante pretendia fazer algo contra as instituições democráticas. "Para os EUA, é bom ter uma boa relação com a região", disse, lacônico.

Segundo o assessor, essa questão é mais relevante que a decisão da Suprema Corte de Honduras de que a destituição do presidente Manuel Zelaya é definitiva. A palavra final da corte, para ele, é apenas um "jogo de cartas marcadas" com o Congresso. Garcia enfatizou sua frustração com a conduta "ideológica de certo setor da diplomacia americana" ao lidar com a crise hondurenha. "A política externa dos EUA pode ser acusada de qualquer coisa, "menos de ser amadora".

Crise

Garcia disse também que sua decepção vem sendo compartilhada publicamente pelo chanceler Celso Amorim e pelo secretário-geral das Relações Exteriores, Antonio Patriota. No entanto, insistiu que "não há crise" entre Brasil e EUA. Anteontem, depois de suas declarações à imprensa, Garcia recebeu um telefonema do general James Jones, conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca.

Ontem, depois de uma hora de conversa com a secretária de Estado, Hillary Clinton, Amorim afirmou que "não há divergências maiores" nos princípios que balizam as posições dos dois países sobre o tema. Segundo ele, o Brasil não fará dessa questão um "ponto de confrontação" com Washington. O governo brasileiro registra ainda com apreensão o alinhamento de países latino-americanos - em princípio, Panamá, Colômbia e Peru - à posição americana sobre Honduras. Um das consequências seria a divisão entre os latino-americanos que, no mês passado, haviam firmado uma posição comum sobre a necessária volta de Zelaya à presidência para que o pleito de domingo fosse legitimado.

Outra consequência seria a fragilização da credibilidade da Organização dos Estados Americanos (OEA). Para o chanceler Amorim, o fato de o Brasil e outros países não se alinharem aos EUA na OEA não seria um problema, uma vez que divergências são notadas nas votações das Nações Unidas. "Não precisamos ficar com essa obsessão de que, se não vota com os EUA, algo de ruim vai acontecer, vai cair um raio na nossa cabeça. Não é assim", afirmou Amorim.

Em Brasília, o porta-voz da Presidência da República, Marcelo Baumbach, reafirmou que "a posição brasileira não mudou. O Brasil não reconhecerá o governo que, eventualmente, saia das eleições, se é que elas serão realizadas".

 

(Colaborou Tânia Monteiro)

Mais conteúdo sobre:
Honduras

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.