Daniel Aguilar/Reuters
Daniel Aguilar/Reuters

Gestão de Hugo Chávez está enfraquecida, dizem especialistas

Crises de abastecimento, renúncia de ministros e governador desgastam imagem do presidente venezuelano

João Coscelli, do estadao.com.br,

25 Fevereiro 2010 | 07h23

A presença de autoridades cubanas em cargos estratégicos do poder na Venezuela no atual momento de crise pelo qual o país passa e a renúncia de alguns dos principais ministros e aliados do presidente Hugo Chávez demonstram a fragilidade do governo venezuelano, indicam especialistas.

 

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Segundo o professor Ricardo Sennes, do curso de Relações Internacionais da PUC-SP, a convocação do comandante cubano Ramiro Valdés para aconselhar Chávez sobre a crise energética é um sinal de que o venezuelano não tem uma equipe de confiança no país, o que demonstra uma fraqueza em sua gestão. "A capacidade de gerenciamento de crises do governo de Hugo Chávez é muito pequena. Com o apoio que tem, não será possível controlar esses setores instáveis", disse o professor.

 

No início do mês, o governo da Venezuela decretou estado de emergência elétrica em todo o país e desde então tem realizado cortes de energia esporádicos, e esse foi o motivo para a chegada de Valdés, ministro da Tecnologia e presidente do Conselho de Ministros da ilha, o que não agradou nem a oposição e nem os aliados de Chávez.

 

O ministro da Saúde, Carlos Rotondaro, foi outro que se mostrou descontente com a presença dos cubanos - deixou a gestão chavista pelo fato de haver profissionais provenientes da ilha caribenha em altos cargos nos hospitais do país. Além de Rotondaro, Ramón Carrizález, ministro da Defesa e vice de Chávez; Yuribí Ortega, ministra do Ambiente; e Eugenio Vásquez Orellana, titular da pasta de Bancos Estatais, renunciaram aos seus cargos, o que mostra que o presidente da revolução bolivariana está perdendo apoio, de acordo com o professor Hector Saint-Pierre, coordenador do curso de Relações Internacionais da Unesp de Franca. "Essa fuga do Executivo mostra que há uma fratura interna, a própria estrutura do governo chavista está se rompendo", analisa o especialista.

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Segundo Saint-Pierre, a fragilidade do governo chavista se deve À falta de uma estrutura partidária sólida. "Há um descontentamento na Venezuela. Chávez não tem relações com setores industriais, com sindicatos, com a igreja, e por isso não tem estruturas de apoio. Ele conversa diretamente com o povo, isso é o chavismo", explica. Em janeiro, durante um discurso inflamado, o presidente evidenciou tal característica de sua gestão. "Não admitirei que minha liderança seja contestada, porque eu sou o povo, caramba!", disse na ocasião.

 

Sennes, porém, lembra que não é recente o fenômeno da saída de ministros do governo venezuelano. José Vicente Rangel, chanceler, ministro da Defesa e vice-presidente, foi o primeiro chavista de peso afastado, em 2007. Dois anos depois, Jesse Chacón, que esteve à frente dos Ministérios de Comunicação e do Interior e Justiça renunciou. "Há sinais de perda de apoio, mas isso (saída de ministros) não é algo novo, o jogo político na Venezuela sempre foi dividido. Isso é reflexo dos problemas estão se avolumando", diz o professor.

 

Além da crise energética, o país também sofre com a abastecimento de outros serviços básicos, e recentemente tem administrado cortes de água na capital Caracas. O fechamento do canal privado RCTV também desencadeou uma série de protestos estudantis e a dura repressão por parte das força de segurança desgastou ainda mais a imagem do presidente. Por fim, Chávez, que preside o país com a pior taxa de inflação da América Latina, realizou reformas cambiais não planejadas - fez com que US$ 1 vale 2,6 bolívares para os gêneros de primeira necessidade e 4,30 para os demais produtos importados.

 

Permanência

 

Com a Constituição permitindo reeleição ilimitada, há a possibilidade de que Chávez continue no poder ao fim de seu mandato, em 2012, embora a última pesquisa do Instituto Venezuelano de Análise de Dados mostre uma queda no apoio ao presidente, ainda que no alto nível de 58%. Para Sennes, mesmo com o apoio em queda, o presidente só deve ter o poder ameaçado se a fragmentada oposição venezuelana se organizar. "Se os grupos opositores se estruturarem minimamente, pode ser que haja mudanças na configuração do Congresso, o que certamente seria uma influência contrária a Chávez", argumenta.

 

Saint-Pierre, porém, acredita que o recente crescimento das manifestações populares é algo que pode representar um obstáculo para a permanência do presidente no poder. "Chávez está bem debilitado internamente, já que as manifestações estão cada vez maiores. Ele terá muita dificuldade para governar e terminar sua administração tranquila", diz o professor.

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