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Governo Maduro oferece casas fora de Caracas para esvaziar ‘favela vertical’

Guilherme Russo - ENVIADO ESPECIAL / CARACAS

30 Agosto 2014 | 19h 00

 Há cinco anos, a professora venezuelana Iraida Roa, de 29 anos, mudou-se com o marido de Barinas para Caracas, com o sonho de trabalhar e obter casa própria na capital do país. Conseguiu trabalho, mas, para morar, teve de se juntar às mais de 1,1 mil famílias que, desde 2007, ocuparam a Torre de David, um complexo de edifícios cuja construção foi paralisada em meados dos anos 90, no centro caraquenho. A obra inacabada já foi considerada a maior favela vertical do mundo.

JORGE SILVA/REUTERS - 03/02/2014
Torre de David. Edifício inacabado de 45 andares em Caracas ainda abriga 722 famílias

 Em 2011, quando o presidente Hugo Chávez lançou o programa habitacional Gran Misión Vivienda, ela se inscreveu. Em maio, após um senso realizado antes da desocupação do edifício pelo governo, foi informada que poderá se mudar com sua família para uma casa popular em sua cidade. “Em 15 dias me mudo para minha casa”, afirmou a professora ao Estado.

A Gran Misión Vivienda foi lançada antes da campanha presidencial de 2012. O governo justificou sua criação com as intensas chuvas que, nos dois anos anteriores, danificaram milhares de residências. 

“É um bom programa. Semana que vem vão nos levar para conhecer nossa casa”, comemorou, afirmando esperar que o governo também lhe dê opções de trabalho no retorno a Barinas. Atualmente, ela divide com o marido, o filho de 3 anos, dois cunhados e dois irmãos um espaço de menos de 20 metros quadrados de um dos apartamentos da ocupação. “Nosso maior problema é a água, que só chega aqui em cima (no 10.º andar do edifício) quando bombeamos – e não é constante.

Estima-se que a Venezuela tenha um déficit habitacional de aproximadamente 2 milhões de residências. Na segunda-feira, o presidente da Câmara Bolivariana de Construção, Gerson Hernández, afirmou que a escassez de cimento e aço tem atrasado a entrega dos apartamentos da Gran Misión Vivienda, atribuindo a falta à “alta demanda” e ao custo de transporte dos materiais. O objetivo do governo venezuelano é entregar 400 mil moradias até o fim deste ano.

Vivendo há dois anos com a mulher e o filho de 4 meses em um apartamento no andar térreo da Torre de David, cujo nome oficial era Torre Confinanzas, danificado pela umidade, o pedreiro Roberto Almanza, de 32 anos, afirmou que também se inscreveu no programa habitacional em 2011. “Mas a casa não saiu. Já fomos favorecidos, mas houve uma confusão e apareceu outra família”, reclamou. “Falaram que vão nos chamar na semana que vem. Meu bebê está com problemas de saúde (nas vias respiratórias)”, disse. Como vários outros moradores da Torre de David, Almanza queixa-se de que o governo ofereceu a sua família uma casa fora de Caracas, onde nasceu e cresceu. “Fora da cidade é impossível, pelo trabalho. Mas o importante é sair daqui.”

Também inscrita na Gran Misión Vivienda desde 2011, a cabeleireira Keyla Rodríguez, de 49 anos, trabalha no bairro caraquenho da Candelaria, a cinco quadras da Torre de David. “Estão me oferecendo morar fora de Caracas, mas com o transporte público como é por aqui, eu perderia muito tempo para ir trabalhar. Não dá para sair de casa às 4 horas e voltar às 23h30. Vivi 20 anos em Santa Teresa de Tuy, sei como é isso”, disse. 

De acordo com o governo, 434 famílias foram retiradas da Torre de David desde maio. Ainda segundo o levantamento de Caracas, permanecem 722 famílias no edifício inacabado, de 45 andares.