Nos EUA, venezuelanos 'no exílio' se organizam

Concentrada na Flórida, comunidade nos EUA cresceu 94% sob Chávez e busca agora ter mais influência política

Patrícia Campos Mello, de O Estado de S. Paulo,

29 Junho 2009 | 08h11

Enquanto em vários cantos do mundo as novas políticas do governo Barack Obama são festejadas, aqui em Little Caracas o clima é de incerteza. Em Weston e Doral, cidades do subúrbio de Miami já conhecidas como Westonzuela e Doralzuela, a crescente colônia de exilados venezuelanos está desanimada com a situação. Na Venezuela, o referendo de fevereiro deu ao presidente Hugo Chávez a possibilidade de se perpetuar no poder. Nos EUA, a posição conciliadora de Obama com regimes adversários diminui as chances de os venezuelanos conseguirem proteções especiais de exilados políticos.

 

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"Esse senhor (Obama) vai nos vender, como vendeu os cubanos. É difícil encontrar democratas que nos defendam; eles olham para o outro lado", diz Ernesto Ackermann, presidente da organização Cidadãos Venezuelano-Americanos Independentes, que busca aumentar o engajamento político dos venezuelanos nos EUA.

Há dez anos, a comunidade de venezuelanos em Miami se restringia a empresários abastados que compravam uma casa na Flórida para passar férias. Mas com a eleição de Chávez, em 1998, e a posterior radicalização de seu governo, a classe média passou a imigrar para a região de Miami. Alguns vieram por motivos econômicos e muitos viram-se forçados a partir por causa das condições políticas. Muita gente enviou a família para Miami, com medo da violência em Caracas, e passa a vida na ponte aérea.

Westonzuela e Doralzuela estão cheias de restaurantes e lanchonetes servindo as típicas arepas e cachapas, e existe até uma clínica para a população carente venezuelana, a Venamher, financiada pela Irmandade Venezuelana-Americana. Há pelos menos cinco jornais para a comunidade na Flórida.

Êxodo antichavista

Parte da oposição contra Chávez imigrou para a Flórida - são advogados, ex-funcionários de petrolíferas, jornalistas e militares desiludidos. Mais de 2.500 venezuelanos receberam asilo do governo americano em 2006 e 2007. Em 1997, um ano antes de Chávez ser eleito, apenas nove venezuelanos conseguiram asilo. Mais de 10 mil venezuelanos receberam residência em 2007, o triplo de 1998.

De acordo com o censo americano, a população venezuelana no país cresceu 94% nesta década, de 91.507 em 2000 para 177.866 em 2006. Mas líderes da comunidade estimam números muito maiores, de 250 mil, principalmente porque grande parte dos venezuelanos está no país ilegalmente.

A maioria dos venezuelanos achou que vinha por pouco tempo. "Mas Chávez está durando muito mais do que esperávamos, os preços do petróleo ficaram altos durante muito tempo", diz Pedro Burelli, ex-integrante do conselho da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA).

A bancada cubano-americana no Congresso - deputados Ileana Ros-Lehtinen, Lincoln Diaz-Balart e Connie Mack - abraçou a causa dos exilados venezuelanos. O motivo é simples: não há venezuelanos residentes suficientes para elegerem seu representante. "Mas os cubanos abraçam nossa causa também por motivos práticos: Cuba só sobrevive graças ao petróleo da Venezuela; Havana revende o petróleo de Chávez para se sustentar", diz Bernardo Jurado, ex-capitão da Marinha venezuelana que assinou o referendo contra Chávez e fugiu, acusado de espionar para a CIA. Ele está esperando seu asilo político.

Muitos que vêm entram com visto de turista e acabam ficando. Os venezuelanos nos EUA lutam para ter o status de "deferred enforced departure" (DED), segundo o qual o presidente suspende deportações de imigrantes que poderiam estar em perigo, por motivos políticos, se voltassem a seu país de origem.

"As chances diminuem nesse governo democrata, pois Obama não quer nenhuma disputa com Chávez, e a concessão de DED para venezuelanos poderia ser interpretada como uma afronta pelo governo venezuelano", diz Elio Aponte, presidente da Organização dos Venezuelanos no Exílio, de Miami.

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