OEA diz que permanência de 'ditadura' em Honduras é 'loucura'

Secretário-geral diz que é impossível evitar confrontos e que golpe vai provocar onda de violência no país

20 Julho 2009 | 13h15

O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, qualificou como "uma loucura que pode custar caro" a permanência do governo de facto de Honduras, dirigido por Roberto Micheletti. "É quase impossível evitar [a violência] e fazer pedidos por calma quando a ditadura pretende se manter no poder", disse Insulza em declarações à rádio Cooperativa.

 

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O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, que neste domingo deu por "encerrado" o diálogo para solucionar a crise em seu país, anunciou uma "insurreição" e pediu que a comunidade internacional "endureça as medidas" contra o novo governo de Roberto Micheletti. No entanto, Óscar Arias, presidente da Cosa Rica e mediador no conflito, anunciou um prazo de 72 horas para que as partes busquem soluções para a crise.

 

"O presidente Arias deu um tempo de espera de 72 horas para que as posições mudem, ou seja, sobretudo para que o governo de facto flexibilize sua posição. E a verdade é que esse é o principal problema", destacou Insulza. "No geral, o espírito é evitar a violência e o confronto entre os hondurenhos. Não acho que o caminho do confronto seja bom, mas acho que não vamos evitá-lo se não houver, da parte do governo de facto alguma, flexibilidade", acrescentou.

 

Arias, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1987, apresentou uma proposta de sete pontos que pedia, entre outros, a restituição imediata de Zelaya ao poder. A delegação do presidente destituído aceitou as medidas, mas não a representação de Micheletti. "Não existe ninguém no mundo que o apoie [o governo de facto], então é uma loucura que pode custar muito caro aos hondurenhos", continuou Insulza.

 

O secretário-geral da OEA recordou que há duas semanas Honduras está imersa em um cenário de confrontações nas ruas, que já deixou mortos e feridos. "Você imagina o que acontece se dizem [aos hondurenhos] que não haverá conciliação. Isso será um assunto complicado e espero que possamos evitar", disse. Segundo Insulza, "há ouvidos surdos. Por exemplo, Roberto Micheletti diz que está disposto a renunciar, mas tem que dar o segundo passo que é renunciar ao governo incondicionalmente, para que assuma alguém que esteja disposto a restabelecer a legalidade".

 

O presidente deposto e o governo interino que o depôs abandonaram no domingo as negociações, sob alerta do mediador para o risco de derramamento de sangue caso não haja um acordo em breve. Zelaya, deposto por um golpe militar em 28 de junho, disse que voltará a Honduras no próximo fim de semana, apesar dos reiterados alertas dos seus inimigos quanto à possibilidade de que ele seja preso.

 

O governo dos EUA tenta dissuadir Zelaya de voltar do exílio na vizinha Nicarágua antes que haja um acordo, já que seu regresso poderia agravar a crise. No entanto, ele rejeitou a pressão. "Ninguém pode me deter", afirmou à Reuters. Zelaya já tentou voltar em 5 de julho, mas foi impedido por tropas hondurenhas que impediram o pouso do seu avião em Tegucigalpa. Pelo menos uma pessoa morreu nos confrontos entre soldados e seguidores do presidente deposto no aeroporto.

 

Esta é a pior crise política na América Central desde o fim da Guerra Fria, e representa um desafio em meio aos esforços do governo de Barack Obama para melhorar as relações de Washington com a América Latina. Zelaya foi deposto depois de contrariar a elite e o Congresso de Honduras com suas tentativas de ampliar o limite de mandatos presidenciais. A comunidade internacional em geral se mobilizou por sua volta ao poder, o que inclui o governo Obama e a Assembleia Geral da ONU.

 

Os EUA pareceram adotar uma atitude mais cautelosa. "As pessoas que têm negociado têm o poder de (alcançar) uma resolução, mas afinal isso tem de ser uma solução de Honduras para Honduras", disse o porta-voz do Departamento de Estado Rob McInturff. Os Estados Unidos, que são o principal parceiro comercial de Honduras, cortaram, a ajuda militar ao governo interino e ameaçaram suspender também a ajuda econômica.

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