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Os dez anos de Evo Morales à frente da Bolívia

A Bolívia notabilizou-se, ao longo da história, por ser uma das nações mais pobres da América Latina. Freneticamente explorada desde os princípios da colonização espanhola por conta das reservas de prata de Potosi, constituiu-se como um país de baixo dinamismo econômico e forte concentração de renda. Um país partido entre uma ínfima minoria rica e uma imensa maioria muito pobre, no qual classe social e cor da pele se confundiam: uma elite branca controlando a propriedade da terra e os principais negócios com o exterior e uma massa indígena por séculos relegada à pobreza e à indigência. 

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Wagner Iglecias *,
Especial para O Estado de S. Paulo

21 Janeiro 2016 | 20h30

Desde sua independência, em 1825, a Bolívia foi marcada por forte instabilidade política e graves problemas econômicos. Desde lá até o início deste século o país enfrentou mais de uma centena de tomadas de poder, entre golpes de estado, encerramento precoce de mandatos presidenciais e inúmeras rebeliões militares. Apenas entre 1978 e 1982 a Bolívia teve nove presidentes, dado o grau de instabilidade política que tradicionalmente enfrentou ao longo de sua história. O país sempre foi dependente da exportação de bens primários, como petróleo, gás e estanho, cuja renda foi sempre apropriada por uma pequena elite. Nos anos 1980, arrastada pela crise da dívida externa que varreu a América Latina, a Bolívia enfrentou um dos mais graves processos hiperinflacionários até hoje registrados no mundo. Em 1985 o aumento de índice de preços no país alcançou a impressionante marca de 35.000% ao ano. 

Nesta sexta-feira Evo Morales completará dez anos à frente do governo da Bolívia. Foi reeleito em outubro de 2014 com quase 60% dos votos válidos para um terceiro mandato de cinco anos. Algo impensável há três décadas. A chegada de Evo ao poder e a realização de um governo tão longevo constituem um marco histórico. E por diversos motivos. O primeiro, mais óbvio, diz respeito ao fato de que Evo tem origem indígena, como cerca de 90% de seus compatriotas. Não é pouca coisa para um país que durante décadas foi governado por uma minoria branca e rica. Um dos últimos antecessores de Morales, aliás, não só era branco como falava espanhol com forte sotaque por conta de ter sido criado nos Estados Unidos. Como contraponto tem-se em Evo um governante que busca uma inserção política mais autônoma para a Bolívia no cenário internacional e que investiu fortemente na integração latino-americana. 

O segundo aspecto guarda relação com o fato de que Morales não é, obviamente, um produto de si próprio, mas sim do empoderamento crescente dos movimentos sociais bolivianos ao longo das últimas décadas. Os indígenas bolivianos sempre lutaram por seus direitos. E intensificaram sua organização nos anos mais recentes. Os protestos populares voltados principalmente à revisão das formas de apropriação dos recursos naturais do país, visando uma melhor distribuição da renda aferida com sua exportação, são a chave explicativa para se compreender as transformações recentes vividas pela Bolívia. A chamada "Guerra da Água", ocorrida em Cochabamba, em 2000, e a "Guerra do Gás", a partir de 2002, levaram à reversão de medidas privatizantes (no caso da água) e desnacionalizantes (no caso do gás). Acabaram por resultar na renúncia de três presidentes e na ascensão de lideranças indígenas e camponesas, como Evo, eleito pela primeira vez em 2006. 

O terceiro motivo que faz do governo Evo um marco na história boliviana tem a ver com um importante processo de redução da pobreza extrema que o país vem experimentando nos últimos anos. Aliado ao controle das contas públicas, acúmulo de reservas em dólar e ao crescimento econômico (de 5,5% ao ano em média durante os dois primeiros mandatos de Morales), tal processo foi objeto de elogios até mesmo do FMI e do Banco Mundial. O aumento significativo dos investimentos governamentais em educação, saúde e combate à pobreza tem sido financiado pela nacionalização dos recursos naturais do país. Em 2014 a Bolívia teve reconhecida pela Unesco a erradicação do analfabetismo e naquele mesmo ano sua política de combate à fome foi elogiada pela ONU. 

Como pano de fundo filosófico do governo Evo está o conceito de "Suma Qamaña" (Vivir Bien), que constitui o resgate e a revalorização da cosmovisão indígena. Em linhas gerais pode-se definir o "Suma Qamaña" como "vida plena", ou "viver em plenitude". Em outras palavras, ter uma existência em comunhão com a "Pachamama" (a mãe Terra) e com os demais seres vivos, a partir de conceitos como tempo cíclico, comunidade, irmandade e complementariedade.

Obviamente, o governo Evo também enfrentou problemas nestes dez anos e continua a enfrentar. A excessiva dependência da exportação de bens minerais mantém a Bolívia numa condição de subalternidade na economia mundial e fragilidade diante de suas oscilações. Setores do movimento indígena continuam a protestar, enxergando em Morales um governo politicamente muito moderado. Falta ao país know how para explorar industrialmente suas imensas reservas de lítio, as maiores do mundo deste que é um dos minerais do século 21. Ao completar seu terceiro mandato Evo terá presidido a Bolívia por quinze longos anos, reiterando a visão de muitos, à esquerda inclusive, de que os processos de transformação política e social da América Latina continuam ainda muito dependentes de lideranças pessoais. 

* Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

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