Paraguai tem quarta cúpula militar em 15 meses

Novos comandantes tomaram posse na quinta; analistas descartam possibilidade de golpe militar

Ariel Palacios, O Estado de S. Paulo

06 Novembro 2009 | 09h20

O presidente do Paraguai, Fernando Lugo, presidiu nesta quinta-feira a cerimônia de posse da nova cúpula das Forças Armadas. Esta é a quarta cúpula designada por Lugo desde que o ex-bispo fez seu juramento presidencial em agosto do ano passado. Os novos integrantes da cúpula militar são o general Bartolomé Pineda, do Exército); o general Hugo Aranda, da Aeronáutica, além do contra-almirante Egberto Orué, da Marinha fluvial.

 

Lugo negou categoricamente que o motivo para a posse da nova cúpula seja o temor de um hipotético golpe de Estado. Diversos setores políticos em Assunção, capital paraguaia, consideram que Lugo alterou - mais uma vez - a cúpula militar com o intuito de distrair a atenção da opinião pública das fortes pressões que sofre a oposição - que domina o Parlamento.

 

A oposição também acusa assessores de Lugo de envolvimento em casos de corrupção. Além disso, a oposição considera Lugo "incapaz" para reduzir a criminalidade.

 

Segundo o general (de reserva) Bernardino Soto Estigarribia, Lugo aplicou um duro golpe aos militares paraguaios com a quarta mudança da cúpula das forças armadas. "Não dá para mudar os comandantes toda hora. Os oficiais merecem respeito!", afirmou o general, que é pré-candidato do Partido Colorado às eleições presidenciais de 2013.

 

Na terça-feira Lugo alertou sobre a existência de "bolsões golpistas" em alguns quartéis. No entanto, no dia seguinte afirmou que considerava "impossível que as forças armadas façam um retrocesso histórico". Lugo afirmou que os rumores sobre um eventual levante, surgido no fim de semana, devia-se ao "desfile" de tanques do exército paraguaio que foram até a cidade de Dourados (MS), para serviços de manutenção.

 

Por trás da decisão de Lugo também estaria a reunião que chefes das forças armadas teriam tido com líderes da oposição. Coincidentemente, setores da oposição, nos últimos tempos, avaliam realizar um pedido de impeachment contra o presidente Lugo.

 

Segundo o historiador e cientista político Alfredo Boccia Paz, "não existe risco de golpe militar". Boccia Paz disse ao Estado por telefone que "não houve muita lógica nas várias mudanças da cúpula militar realizadas por Lugo. Na primeira até é compreensível, pois chegou ao poder e implementou uma renovação. Mas as três mudanças posteriores não possuem explicação. Políticos indicam que Lugo pretenderia implementar uma profunda mudança da cúpula militar, para contar com oficiais mais afins com seu governo".

 

Boccia Paz sustenta que "as forças armadas estão debilitadas, e portanto, ninguém teme um golpe ou quartelaço". O cientista político recorda: "a última tentativa de golpe ocorreu no ano 2000. De lá para cá tivemos quase uma década inteira de calmaria militar. Uma tentativa de golpe não seria aceita pelo Mercosul".

 

Chavismo

 

O senador Juan Carlos Galaverna, do partido Colorado, de oposição, afirma que as mudanças são parte de um plano de Lugo para colocar em postos de comando militares que recebem dinheiro do presidente venezuelano Hugo Chávez. "Isto é parte da submissão aos desígnios chavistas!", alertou.

 

Militares sem líderes

 

Oscar Ayala Bogarín, diretor jornalístico do periódico "Última Hora", de Assunção, e autor do livro "Operação Gedeão", sobre a tentativa de golpe de Estado do general Lino Oviedo em 1996, disse ao Estado que as declarações de Lugo sobre "bolsões golpistas" foram uma "surpresa". Segundo Bogarín, em visita à Buenos Aires, "as forças armadas podem ser alvo de várias críticas. Mas, é preciso admitir que foi uma das instituições que mais se adaptou às mudanças democráticas, desde o fim da ditadura do general Alfredo Stroessner".

 

Segundo Bogarín, os militares atualmente, ao contrário dos tempos nos quais o general Oviedo era figura de peso, "não conta com líderes fortes", além de carecer de unidades militares com poder de fogo.

 

Lugo chegou ao poder por intermédio da coalizão de governo Aliança Patriótica para a Mudança (APC) - uma colcha de retalhos que reúne grupos de extrema esquerda, sem-terra, partidos conservadores e políticos de centro - após derrotar o Partido Colorado, que havia estado 61 anos no poder. Manter a coalizão unida foi uma tarefa árdua para o ex-monsenhor, que com frequência entra em rota de coalizão com seu vice, Federico Franco, do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), conservador.

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