1. Usuário
Assine o Estadão
assine


Presos estudam idiomas em Guantánamo

Fernanda Simas - O Estado de S. Paulo

28 Junho 2014 | 19h 30

Troca de cinco prisioneiros por soldado americano aumenta esperança e detidos planejam futuro fora da prisão mantida em Cuba

Reuters
Campo Delta, na base de Guantánamo; desde 2002, prisão recebeu 779 detentos

A libertação de cinco prisioneiros da prisão de Guantánamo em troca do soldado americano Bowe Bergdahl, refém do Taleban por cinco anos, levou esperança aos 149 detentos da base americana em Cuba. Eles começaram a estudar idiomas e a fazer planos de trabalho no exterior, acreditando que finalmente serão libertados.

“A Casa Branca tem expressado o contínuo compromisso do presidente (Barack) Obama em fechar Guantánamo e nós esperamos que ocorram mais transferências em breve, principalmente de presos que foram considerados aptos para serem transferidos há anos”, disse o consultor legislativo da União pelas Liberdades Civis Americana (ACLU, na sigla em inglês), Christopher Anders.

Uma das promessas de campanha de Obama, desde seu primeiro mandato, é o fechamento de Guantánamo. No ano passado, após 130 prisioneiros iniciarem uma greve de fome, o presidente colocou de volta a questão em sua agenda.

“Desde a greve de fome, Obama retomou o compromisso e libertou 17 presos. Aqueles que continuam presos estão mais esperançosos. Muitos passam os dias estudando e alguns pediram para receber material de idiomas, como o espanhol”, contou ao Estado Polly Rossdale, advogada da ONG Reprieve, que representa 17 presos, e coordenadora de um programa de reintegração.

Para fechar a prisão, criada após os atentados de 11 de setembro de 2001, o presidente precisa transferir os prisioneiros para seus países de origem ou fazer um acordo para um terceiro país recebê-los, sempre com garantias de que estarão seguros – processo que pode ser longo. Levá-los a julgamento nos EUA não é considerada uma opção em razão da resistência do Congresso e da população em ter “terroristas” de volta ao país. “O presidente está comprometido em acabar com a detenção de pessoas sem acusações ou julgamento e a fechar Guantánamo, mas isso depende de encontrar países dispostos, que possam receber os presos. Essa é a prioridade de Obama”, explicou Anders.

Desde que foi aberta, em janeiro de 2002, Guantánamo recebeu 779 prisioneiros. Até hoje, oito foram condenados e sete, acusados. Atualmente, segundo a ACLU, dos 149 presos, 78 estão livres de acusações e podem ser transferidos, 38 estão presos sem provas, mas não serão libertados porque os EUA os consideram uma ameaça.

“Os prisioneiros são declarados livres para transferência quando não há nenhuma alegação contra eles. Ao assumir, Obama montou uma equipe com representantes de seis agências governamentais, entre elas o FBI e a CIA, para determinar os casos passíveis de transferência. Isso significa que esses 78 homens foram apontados por 6 agências como pessoas que não representam riscos aos EUA e seus aliados”, afirmou Rossdale.

Um deles é o sírio Abu Wael Dhiab. Ele está preso desde 2002 e foi declarado apto a ser transferido em 2009, mas continua em Guantánamo. Dhiab participou da greve de fome e pede à Justiça o fim de sua alimentação forçada. Segundo a Reprieve, a juíza Gladys Kessler disse que marcará o julgamento sobre o caso para, no máximo, setembro.